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A Jornada do Herói — O guia completo: o que é, exemplos, infográfico e por que você está usando errado

Vilto Reis
Escrito por Vilto Reis em 8 de janeiro de 2021
A Jornada do Herói — O guia completo: o que é, exemplos, infográfico e por que você está usando errado
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A Jornada do Herói pode ser uma bênção ou uma maldição para os escritores.

Imagine que há um padrão frequente (não único) nas histórias mitológicas contadas em todas as culturas do mundo. E que este padrão pode ser visto nas histórias contemporâneas, pois alguém o descobriu.

Pronto. É isso.

Por meio do livro O herói de mil faces, Joseph Campbell revelou ao mundo o monomito, que posteriormente seria chamado de a Jornada do Herói.

Continue lendo este artigo para aprender:

  • Quem foi Joseph Campbell?
  • O que é a jornada do herói (ou o monomito)?
  • Os passos da jornada do herói
  • Exemplo da jornada do herói aplicada
  • Conclusão: a jornada do herói é uma ferramenta ou estrutura narrativa?

Quem foi Joseph Campbell?

Joseph Campbell, o descobridor d'A Jornada do Herói
Joseph Campbell, o descobridor d’A Jornada do Herói

Talvez o mitologista mais famoso do mundo, Joseph John Campbell nasceu em Nova Iorque, em 1904.

Campbell foi criado em uma família católica de classe média alta. Desde a infância, era apaixonado pela cultura dos nativos americanos.

Sua ida à Universidade de Columbia possibilitou a graduação em literatura inglesa. E, posteriormente, o mestrado em literatura medieval.

Em seguida, foi à Europa. E enquanto estudava francês antigo e sânscrito na Universidade de Paris e na Universidade de Munique, acabou influenciado pela geração perdida. Uma geração de artistas americanos e de outras nacionalidades exilados em Paris.

O contato com Finnegans Wake, de James Joyce, por exemplo, impactou sua visão de como o cotidiano é uma representação da mitologia.

A literatura de Thomas Mann, a arte visual de Paul Klee e Pablo Picasso, os trabalhos de Sigmund Freud e Carl Jung, a amizade com Jiddu Krishnamurti, que rendeu conversas sobre filosofia e mitologia hindu, tudo isso conduziu Joseph Campbell a grandes mudanças, inclusive influenciando-o a deixar de ser um católico praticante.

Ele retornou aos Estados Unidos pouco antes da Grande Depressão, em 1929.

Queria estudar Sânscrito e Arte moderna, além de Literatura medieval. Seus orientadores, no entanto, não concordaram, o que o levou a romper com o doutorado.

Os cinco anos seguintes de Campbell, de 1929 a 1934, seriam fundamentais. Dedicou-se ao estudo de diversas mitologias. Dividia seus dias em períodos de quatro horas, lia por três seguidas e descansava por uma.

Este estudo viria a fundamentar a criação de sua mais conhecida teoria, o monomito (ou a jornada do herói), possibilitando a escrita de várias de suas obras, como:

Mas qual é a teoria dele afinal?

O que é a jornada do herói (ou o monomito)?

O que é a jornada do herói (ou o monomito)?

Emprestada da obra de Joyce, Finnegans Wake, a expressão “monomito” foi como Campbell chamou sua teoria. 

Os cinco anos de leitura de várias narrativas mitológicas conduziram o autor a um padrão que se repete. 

A ideia é muito simples, conforme definida em seu livro O herói de mil faces: 

“Um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas — forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes.” 

Joseph Campbell

Na introdução do livro The Hero’s Journey: Joseph Campbell on His Life and Work, Phil Cousineau escreveu: “o monomito é, na verdade, um metamito, uma leitura filosófica da unidade da história espiritual da humanidade, a história por trás da história.”

Agora vamos conhecer os passos identificados no monomito.

Os passos da jornada do herói

Veja neste artigo o que é a Jornada do Herói, exemplos de como utilizar o monomito, um infográfico ilustrativo e quem foi Joseph Campbell.

Você pode encontrar por aí com facilidade passos diferentes do que apresentarei abaixo.

Basicamente, porque há certa confusão e falta de pesquisa nas fontes.

Os 12 passos comumente apresentados não são os originais do monomito de Joseph Campbell, mas sim a adaptação feita por Christopher Vogler no livro A jornada do escritor.

Futuramente, talvez possa falar também desta obra, mas no momento, vamos focar na de Campbell e conhecer os passos originais propostos por ele, que são:

  1. O chamado da aventura
  2. A recusa do chamado
  3. O auxílio sobrenatural
  4. A passagem pelo primeiro limiar
  5. O ventre da baleia
  6. O caminho de provas
  7. O encontro com a deusa
  8. A mulher como tentação
  9. A sintonia com o pai
  10. A apoteose
  11. A bênção última
  12. A recusa do retorno
  13. A fuga mágica
  14. O resgate com auxílio externo
  15. A passagem pelo limiar do retorno
  16. Senhor de dois mundos
  17. Liberdade para viver

Agora vejamos em detalhes como funciona cada um deles:

O chamado da aventura

O herói está em seu mundo comum, em sua vida cotidiana, quando algo acontece e uma possibilidade se apresenta a ele.

O destino o convoca e o lança em terras desconhecidas, que podem ser nas palavras de Campbell:

“uma terra distante, uma floresta, um reino subterrâneo, a parte inferior das ondas, a parte superior do céu, uma ilha secreta, o topo de uma elevada montanha ou um profundo estado onírico. Mas sempre é um lugar habitado por seres estranhamente fluidos e polimorfos, tormentos inimagináveis, façanhas sobre-humanas e delícias impossíveis.” 

A recusa do chamado

Este passo é fundamental para fazer com que o leitor se identifique com a história. 

Afinal de contas, quem de nós, diante de grandes desafios, enfrentaria-os de peito aberto?

Então, num primeiro momento, o herói se recusa. Talvez por seu senso de dever ou obrigação, medo, insegurança, uma sensação de inadequação ou qualquer outro motivo que o impede.

“Os mitos e contos de fadas de todo o mundo deixam claro que a recusa é essencialmente uma recusa a renunciar àquilo que a pessoa considera interesse próprio.”

O auxílio sobrenatural

Assim que o herói aceita seu chamado, ele recebe um mentor. 

Alguém que, com frequência, oferecerá a ele algum tipo de instrumento mágico ou sagrado.

Este instrumento o ajudará no futuro a sair de alguma enrascada. 

“Essa figura representa o poder benigno e protetor do destino. A fantasia é uma garantia — uma promessa de que a paz do Paraíso, conhecida pela primeira vez no interior do útero materno, não se perderá, de que ela suporta o presente e está no futuro e no passado (é tanto ômega quanto alfa) e de que, embora a onipotência possa parecer ameaçada pela passagem de limiares e pelos despertares da vida, o poder protetor está, para todo o sempre, presente ao santuário do coração, e até imanente aos elementos não familiares do mundo, ou apenas por trás deles.”

A passagem pelo primeiro limiar

Este é o momento em que o herói deixa o mundo conhecido. 

Talvez até uma fronteira física temida pelos seus, talvez o encontro com um guardião de portal com quem se debaterá para seguir em frente. Rumo a um mundo com limites e regras desconhecidas.

“A aventura é, sempre e em todos os lugares, uma passagem pelo véu que separa o conhecido do desconhecido; as forças que vigiam no limiar são perigosas e lidar com elas envolve riscos; e, no entanto, todos os que tenham competência e coragem verão o perigo desaparecer.”

O ventre da baleia

A passagem pelo primeiro limiar conduz o herói a uma morte simbólica. 

Ele deixa de pertencer ao seu mundo, separando-se dele e se metamorfoseando em algo diferente. Afinal, ele está indo para onde os seus nunca foram.

No livro bíblico de Jonas, o herói tenta fugir ao chamado divino de pregar o arrependimento ao povo de Nínive. Como resultado, foge em um navio para Társis, mas após uma tempestade, é jogado no mar. Ali, é engolido por uma baleia e, após se reconciliar com deus, aceita o seu fado. 

Em uma análise junguiana, Jonas na barriga da baleia pode ser visto como a morte simbólica e o renascimento.

“A ideia de que a passagem do limiar mágico é uma passagem para uma esfera de renascimento é simbolizada na imagem mundial do útero, ou ventre da baleia. O herói, em lugar de conquistar ou aplacar a força do limiar, é jogado no desconhecido, dando a impressão de que morreu.”

O caminho de provas

Neste novo mundo, o herói será provado em uma série de testes, o caminho das provas, que o levará à transformação.

É comum que se apresentem três testes, nos quais ele irá falhar em ou mais.

Mesmo assim, o herói conseguirá superar esta provações e ir adiante, conforme Campbell explica:

“A partida original para a terra das provas representou, tão-somente, o início da trilha, longa e verdadeiramente perigosa, das conquistas da iniciação e dos momentos de iluminação. Cumpre agora matar dragões e ultrapassar surpreendentes barreiras — repetidas vezes. Enquanto isso, haverá uma multiplicidade de vitórias preliminares, êxtases que não se podem reter e relances momentâneos da terra das maravilhas.”

O encontro com a deusa

Aqui o autor propõe que o personagem receberá as dádivas por suas vitórias.

É um dos pontos mais questionáveis da Jornada do Herói e que foi contestado por  Maureen Murdock em sua Jornada da Heroína. 

Vejamos o que Campbell disse sobre este passo: 

“A aventura última, quando todas as barreiras e ogros foram vencidos, costuma ser representada como um casamento místico (hierógamos) da alma-herói triunfante com a Rainha/Deusa do Mundo. […] O encontro com a deusa (que está encarnada em toda mulher) é o teste final do talento de que o herói é dotado para obter a bênção do amor (caridade: amor jaú), que é a própria vida, aproveitada como o invólucro da eternidade.”

A mulher como tentação

Aqui o herói passa por algum tipo de tentação, geralmente relacionada ao prazer sexual, que procura desviá-lo de seu objetivo.  

Esta tentação não necessariamente precisa ser representada por uma mulher. 

Campbell cita a mulher como uma metáfora para as tentações físicas ou materiais da vida, uma vez que o cavaleiro-herói era com frequência tentado pela luxúria em sua jornada espiritual. 

(O que é bem preconceituoso hoje em dia, concordo).

Para o autor:

“Em geral nos recusamos a admitir que exista, dentro de nós ou dos nossos amigos, de forma plena, a impulsionadora, autoprotetora, malcheirosa, carnívora e voluptuosa febre que constitui a própria natureza da célula orgânica. Em vez disso, costumamos perfumar, lavar e reinterpretar, imaginando, enquanto isso, que as moscas e todos os cabelos que estão na sopa são erros de alguma desagradável outra pessoa. 

Mas quando de súbito percebemos, ou somos obrigados a observar, que tudo quanto pensamos e fazemos é temperado necessariamente pelo odor da carne, então experimentamos, não raro, um momento de repugnância: a vida, os atos da vida, os órgãos da vida, a mulher em particular, como o grande símbolo da vida, tornam-se intoleráveis à incomparavelmente pura alma.” 

A sintonia com o pai

Aqui encontramos o ponto central da narrativa, talvez o principal confronto e iniciação.

É aqui que o herói se depara com o que há de mais poderoso em sua vida. Neste caso, em muitas narrativas míticas, o pai ou uma figura paterna que tem poder de vida ou morte.

Não necessariamente precisa ser um homem, mas é certo que é algo ou alguém com um poder incrível.

Tudo pelo que o herói passou o levou a este lugar e, passando essa fase, ele seguirá para fora deste ponto.

Campbell disse que:

“O problema do herói que vai ao encontro do pai consiste em abrir sua alma além do terror, num grau que o torne pronto a compreender de que forma as repugnantes e insanas tragédias desse vasto e implacável cosmo são completamente validadas na majestade do Ser. O herói transcende a vida, com sua mancha negra peculiar e, por um momento, ascende a um vislumbre da fonte. Ele contempla a face do pai e compreende. E, assim, os dois entram em sintonia.”

A apoteose

O herói chega ao ápice, encontrando um conhecimento profundo.

Munido então deste novo saber, ele encarará a parte mais difícil de sua aventura, lidando com o que é quase impossível.

“Aqueles que sabem, não apenas que o Eterno vive neles, mas que eles mesmos, e todas as coisas, são verdadeiramente o Eterno, habitam os bosques de árvores que atendem aos desejos, bebem o licor da imortalidade e ouvem, em todos os lugares, a música silenciosa da harmonia universal.”

A bênção última

Aqui o herói conquista seu objetivo. Após um confronto final, recebe sua bênção última.

Sua jornada serviu para prepará-lo, talvez até purificá-lo, já que algumas jornadas têm fins transcendentais, para alcançar seu prêmio final. 

Pode ser algo como o elixir da própria vida, uma planta que fornece a imortalidade, ou o Santo Graal.

“Os deuses e deusas devem ser entendidos, em conseqüência, como encarnações e guardiães do elixir do Ser Imperecível, mas não são, em si mesmos, o Ultimo em seu estado essencial. Assim, o herói busca, por meio do seu intercurso com eles, não propriamente a eles, mas a sua graça, isto é, o poder de sua substância sustentadora. Essa miraculosa energia substância, e só ela, é o Imperecível; os nomes e formas das divindades que, em todos os lugares, a encarnam distribuem e representam, vêm e vão. Essa é a energia miraculosa dos relâmpagos de Zeus, de Jeová e do Supremo Buda, a fertilidade da chuva de Viracocha, a virtude anunciada pelo sino tocado na missa no momento da consagração, assim como a luz da iluminação última do santo e do sábio. Seus guardiães só ousam liberá-la para aqueles que verdadeiramente mostraram ser dignos dela.”

A recusa do retorno

Após tamanha iluminação encontrada no novo mundo, o herói talvez se recuse a voltar a seu mundo e compartilhar com os demais a benção alcançada.

Afinal de contas seriam tão dignos como ele? Mereceriam a graça? Há um milhão de desculpas para não compartilhá-la.

“Terminada a busca do herói, por meio da penetração da fonte, ou por intermédio da graça de alguma personificação masculina ou feminina, humana ou animal, o aventureiro deve ainda retornar com o seu troféu transmutador da vida. O círculo completo, a norma do monomito, requer que o herói inicie agora o trabalho de trazer os símbolos da sabedoria, o Velocino de Ouro, ou a princesa adormecida, de volta ao reino humano, onde a bênção alcançada pode servir à renovação da comunidade, da nação, do planeta ou dos dez mil mundos. 

Mas essa responsabilidade tem sido objeto de frequente recusa. Mesmo o Buda, após seu triunfo, duvidou da possibilidade de comunicar a mensagem de sua realização. Além disso, conta-se que houve santos que faleceram quando estavam no êxtase celeste. São igualmente numerosos os heróis que, segundo contam as fábulas, fixaram residência eterna na bendita ilha da sempre jovem Deusa do Ser Imortal.” 

A fuga mágica

No retorno, o herói pode ter de escapar com a bênção recebida. Por exemplo, se for algo que forças superiores mantiveram tão bem protegido.

E mesmo depois de tudo pelo que o herói passou, a volta pode ser tão perigosa quanto foi a viagem.

Campbell afirma que:

“Se o herói obtiver, em seu triunfo, a bênção da deusa ou do deus e for explicitamente encarregado de retornar ao mundo com algum elixir destinado à restauração da sociedade, o estágio final de sua aventura será apoiado por todos os poderes do seu patrono sobrenatural. Por outro lado, se o troféu tiver sido obtido com a oposição do seu guardião, ou se o desejo do herói no sentido de retornar para o mundo não tiver agradado aos deuses ou demônios, o último estágio do ciclo mitológico será uma viva, e com freqüência cômica, perseguição. Essa fuga pode ser complicada por prodígios de obstrução e evasão mágicas.”

O resgate com auxílio externo

Na fuga mágica, o herói pode receber um auxílio externo. 

De igual modo a quando saiu de seu mundo comum, é possível que a ajuda de um guia ou salvador para trazê-lo de volta ao à vida cotidiana seja necessária.

Ainda mais se ele foi ferido ou enfraquecido pela experiência. 

“O herói pode ser resgatado de sua aventura sobrenatural por meio da assistência externa. Isto é, o mundo tem de ir ao seu encontro e recuperá-lo. Pois a bênção do domicílio profundo não é abandonada com facilidade em favor da auto-dispersão do estado vígil. “Quem, tendo deixado o mundo”, lemos, “desejaria retornar? Quem assim estivesse, lá ficaria.” E, no entanto, enquanto se estiver vivo, a vida chamará. A sociedade, que tem ciúme daqueles que dela se afastam, virá bater à sua porta. Se o herói — tal como Muchukunda — não estiver disposto a retornar, aquele que o perturbar sofrerá um pavoroso choque; mas, por outro lado, se aquele que foi chamado apenas estiver sendo retardado — aprisionado pela beatitude do estado de existência perfeita (que se assemelha à morte) —, é efetuado um evidente resgate, e o aventureiro retorna.”

A passagem pelo limiar do retorno

Conforme Campbell sinaliza em O herói de mil faces é difícil sobreviver ao impacto do mundo comum.

Depois de tantas aventuras, como lidar com as banalidades do cotidiano?

O próprio autor revela o truque para sobreviver a isso. Reter a sabedoria adquirida na jornada, aplicá-la à vida para descobrir como compartilhá-la com sua comunidade, talvez até com todo o seu mundo. 

Campbell diz:

“Muitos fracassos comprovam as dificuldades presentes nesse limiar que afirma a vida O primeiro problema do herói que retorna consiste em aceitar como real, depois de ter passado por uma experiência da visão de completeza, que traz satisfação à alma, as alegrias e tristezas passageiras, as banalidades e ruidosas obscenidades da vida. Por que voltar a um mundo desses? Por que tentar tornar plausível, ou mesmo interessante, a homens e mulheres consumidos pela paixão, a experiência da bem-aventurança transcendental? Assim como sonhos que se afiguraram importantes à noite podem parecer, à luz do dia, meras tolices, assim também o poeta e o profeta podem descobrir-se bancando os idiotas diante de um júri de sóbrios olhos. O mais fácil é entregar a comunidade inteira ao demônio e partir outra vez para a celeste habitação rochosa, fechar a porta e ali se deixar ficar. Mas se algum obstetra espiritual tiver, nesse entretempo, estendido a shimenawa em torno do refúgio, então o trabalho de representar a eternidade no plano temporal, e de perceber, neste, a eternidade, não pode ser evitado.”

Senhor de dois mundos

Provavelmente, um herói humano só poderá atingir este equilíbrio se conciliar o mundo material e espiritual.

Outra forma de entendimento seria alcançar uma posição conciliável do mundo interno e externo.

Vejamos de que forma o autor vê a questão:

“A liberdade de ir e vir pela linha que divide os mundos, de passar da perspectiva da aparição no tempo para a perspectiva do profundo causai e vice-versa — que não contamina os princípios de uma com os da outra e, no entanto, permite à mente o conhecimento de uma delas em virtude do conhecimento da outra — é o talento do mestre. O Dançarino Cósmico, declara Nietzsche, não se mantém pesadamente no mesmo lugar; mas, com alegria e leveza, gira e muda de posição. É possível falar apenas de um ponto por vez, mas isso não invalida o que se percebe nos demais.”

Liberdade para viver

Por fim, o herói alcança a libertação do medo da morte, conquistando a liberdade de viver.

Às vezes, isso é chamado de viver o momento, sem antecipar o futuro nem lamentar o passado. 

Campbell define:

“O herói é o patrono das coisas que se estão tornando, e não das coisas que se tornaram, pois ele é. “Antes de Abraão existir, EU SOU.” Ele não confunde a aparente imutabilidade no tempo com a permanência do Ser, nem tem temor do momento seguinte (ou da “outra coisa”), como algo capaz de destruir o permanente com sua mudança. “Nada retém sua própria forma; a Natureza, a maior renovadora, constantemente cria formas de formas. Certamente nada há que pereça em todo o universo; há apenas variação e renovação de forma.” Assim se permite que o momento seguinte venha a ocorrer.” 

Exemplo da jornada do herói aplicada

Sam, Frodo e Gollum no filme O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002), dirigido por Peter Jackson

Poderíamos citar inúmeros contos, livros, filmes, quadrinhos entre outras narrativas, mas vamos citar um clássico, O senhor dos anéis, de J.R.R. Tolkien, ok?

O que você precisa ter em mente é que a jornada do herói não é literal. 

Na realidade, tratando-se de um autor como Campbell, que estudou a obra de Jung, podemos afirmar que quase tudo é simbólico.

A Jornada do Herói serve para analisar tanto a história de um deus antigo, como a de um cavaleiro medieval, a busca de um pai por emprego ou a narrativa de sucesso ou fracasso de uma jogadora de tênis. 

Isso não quer dizer que a Jornada do Herói é a única estrutura possível, mas certamente uma das que aparece com frequência nas histórias.

Nem mesmo que todo o herói terminará a jornada. 

Dito isso, vejamos a aplicação da Jornada do Herói na história de O senhor dos anéis.

A Jornada do Herói aplicada a Senhor dos Anéis

O chamado da aventura: Gandalf revela a Frodo que o anel que ganhou do tio, Bilbo, deve ser destruído para derrotar o mal.

A recusa do chamado: Frodo está incerto, porque ele nunca teve uma aventura antes, mas sem alternativa e com confiança em Gandalf, ele parte em sua jornada.

O auxílio sobrenatural: Frodo é acompanhado pelos hobbits Merry, Pippin e Sam. Depois de uma série de apuros e desventuras, onde são salvos apenas pela intervenção oportuna do misterioso Tom Bombadil, eles chegam à cidade de Bri. 

A passagem pelo primeiro limiar: o estalajadeiro entrega uma carta de Gandalf recomendando Aragorn como seu guia. Eles são atacados pelos Nazgûl, mas sobrevivem.

O ventre da baleia: Frodo acorda em Valfenda, onde o sábio Elrond usa magia para salvar o hobbit. 

O caminho de provas: a sociedade do anel é formada para levar o anel até a Montanha da Perdição. Eles partem, mas uma tempestade quase os enterra, são atacados por orcs nas Minas de Moria, além de um Balrog, e Gandalf cai no abismo.

O encontro com a deusa: devastada pela perda de Gandalf, a Sociedade foge para a floresta élfica de Lothlórien. Galadriel os protege por um tempo e oferece conselhos sábios. 

A mulher como tentação: (aqui fica um pouco subvertido) Frodo oferece o Anel para Galadriel, mas ela resiste à tentação. 

A sintonia com o pai: quando Boromir sucumbe à tentação e tenta pegar o anel de Frodo, o Hobbit vê o que o objeto pode fazer consigo, mas escapa. 

A apoteose: Frodo resolve partir sozinho para Mordor, lutando contra a ideia de Sam ir junto, mas permite.

A bênção última: Frodo passa por muitas provações, como ser capturado por uma aranha gigante, além do peso do Um Anel. Só então, ele chega à Montanha da Perdição, onde trava uma luta com Gollum. Ele hesita em se livrar do anel, sucumbindo à tentação, mas Gollum toma o objeto dele e acaba caindo no vulcão.

A recusa do retorno, a fuga mágica e o resgate com auxílio externo: podemos condensar os três passos no momento em que Frodo está quase se rendendo, devido ao peso de sua jornada e é resgatado pelas águias gigantes, tendo seus ferimentos tratados pelo próprio Aragorn.

A passagem pelo limiar do retorno: No retorno ao Condado, Frodo encontra uma terra devastada por Saruman. Merry, Pippin e Sam lideram uma revolta, pois como heróis, não são como aqueles que ficaram e possuem uma visão diferente do mundo.

Senhor de dois mundos: por muito tempo, Frodo não atinge este estágio, pois permanece desapegado e triste, danificado por suas experiências com o Anel. 

Liberdade para viver: anos depois de voltar para casa, ele faz uma viagem final e junta-se a Elrond, Galadriel, Gandalf e até mesmo Bilbo. Eles navegam com os elfos para as Terras Imortais. Mesmo tendo salvado o Condado para outros, Frodo é incapaz de viver ali, mas finalmente encontra a paz.

Conclusão: a jornada do herói é uma ferramenta ou estrutura narrativa?

Conclusão: a jornada do herói é uma ferramenta ou estrutura narrativa?
Foto por Green Chameleon

A meu ver, este é um dos pontos mais importantes do texto.

Afinal de contas, você deve ter visto a jornada do herói em diversos outros lugares. Talvez até mesmo tenha aplicado ela a algo que você escreveu.

Eu mesmo quase caí na tentação, no tópico anterior, de criar um exemplo de história em cima dela.

No entanto, vejo a Jornada do Herói muito mais como uma ferramenta de análise do que como estrutura, tal como a Estrutura de 3 Atos.

Veja bem, não estou querendo ditar regras. É só minha opinião.

Caso deseje usar a Jornada com uma boa dose de imaginação, encaixando sua história de forma que vise totalmente o simbólico e não o literal, pode funcionar.

Porém o que quero dizer é que independentemente do que faça, você criará uma história que pode (não quer dizer que vai) se encaixar na jornada. Por um motivo muito simples: é assim que nós seres humanos contamos histórias, a partir de pontos de identificação e conflitos.

Não seria muito mais simples você planejar a história com a sequência de cenas que tem na cabeça e depois usar a jornada como uma estrutura de análise da narrativa?

Penso que sim.

É como o Joseph Campbell fez, aliás. Ele olhou para as histórias e viu a jornada. 

Que tal você fazer o mesmo?

Uma ferramenta com tamanho potencial, como a Jornada do Herói, não deve ser desperdiçada pelo escritor, mas precisa ser bem usada.

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