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ARQUÉTIPOS NA FICÇÃO — Como evitar o exagero de personagens secundários na história

Publicado por Vilto Reis em

No livro A jornada do escritor, Christopher Vogler apresenta um esquema de arquétipos na ficção que funciona muito bem para eliminar personagens secundários desnecessários. 

Apesar do que muita gente pensa, o livro não fala apenas da jornada do herói. 

A jornada, aliás, é muito interessante, mas vem sendo mal-utilizada. Por isso, vem caindo em descrédito. Mas isso é assunto para outro artigo. 

Neste artigo, você vai descobrir como utilizar o esquema apresentado por Vogler, além de ver uma aplicação para evitar personagens secundários que não acrescentam nada à história.

Antes de tratar de cada arquétipo, vamos entender o conceito a seguir.

Arquétipos na ficção como emanações do herói

É importante que você saiba que quando falarmos de “herói” neste texto, estamos nos referindo ao “protagonista” da história. Não a alguém vestindo uma fantasia esquisita com super poderes, ou especificamente sobre um herói do estilo capa e espada.

Bom, vamos ao conceito.

Segundo Vogler, seguindo uma linha bem junguiana, os demais personagens da história funcionam como “emanações da personalidade” do herói.

Ou seja, a sombra (vilão) existe como algo que o protagonista deve enfrentar para se tornar alguém completo, alguém melhor. 

Dessa forma, ao vivenciar o ciclo da história/aventura e entrar em contato com os arquétipos — o mentor, o guardião de limiar, o arauto, o camaleão, a sombra, o pícaro etc —, o herói estaria desenvolvendo a si mesmo.

Esta é uma ideia muito interessante. Principalmente, ao considerarmos aquela máxima de que o personagem principal precisa evoluir ou aprender alguma coisa durante a história.

Abaixo, um esquema que está no livro (pg.63) e ilustra este processo: 

No curso CAMINHO DO ESCRITOR, ao tratar sobre arquétipos na ficção, sobreponho a este esquema a ideia de Henry James sobre a iluminação do personagem.

Basicamente, a ideia deste autor inglês era de que o personagem principal entra em contato com outros personagens para “iluminar” aspectos da sua personalidade, revelando-o ao leitor.

Isso tudo nos conduz a uma conclusão. 

Ao planejarmos nossas histórias, devemos levar em conta cada encontro que acontece. 

Podemos nos perguntar: esta cena está iluminando algum aspecto do nosso personagem? Como ele está lidando com esta emanação da sua personalidade?

Enfim, fica a reflexão. 

Agora vamos conhecer cada um dos arquétipos na ficção propostos por Vogler.

Os 8 principais arquétipos na ficção

A verdade é que existem muitos outros arquétipos. “[…] tantos quantas são as qualidades humanas que podem ser dramatizadas numa história”, como diz o autor.

Mas se você quer ter uma história enxuta, sem personagens sobrando, procure encaixar seus figurantes em alguns dos arquétipos de personagens abaixo. 

Às vezes, pode até ser que um mesmo personagem se encaixe em mais de um. Sem problemas. 

Veja só cada um deles:

HERÓI 

Ou, como já expliquei, é o protagonista da história. É quem a move à frente. Muitas das vezes, até sem querer, no começo. É a partir dele que acompanhamos o avançar da trama.

É alguém cheio de emoções, até mesmo algumas contraditórias, que vai sofrer uma série de provações até o ato final. Momento em que ele ascenderá ou declinará.

Vogler ainda diz que há dois tipos de heróis:

1. Os decididos, ativos, loucos por aventuras, que não têm dúvidas, do tipo sempre em frente, automotivados. 

2. Os pouco dispostos, cheios de dúvidas e hesitações, passivos, que precisam ser motivados ou empurrados por forças externas para se lançarem numa aventura. 

Ambos podem ser utilizados para boas histórias, embora o primeiro modelo seja uma fonte maior de identificação com o público.

Função dramática: identificação com o público.

MENTOR (VELHA OU VELHO SÁBIO)

Embora o arquétipo nos dê uma ideia de alguém “velho”, na verdade se refere a um indivíduo mais experiente, com algo a ensinar.

Como Vogler define: “em geral, uma figura positiva que ajuda ou treina o herói.”

Ou seja, pode ser desde o pai/mãe do personagem até uma divindade, como a deusa Atena na história da Odisseia, um amante ou algo interno, uma lição aprendida.

Função dramática: ensinar.

GUARDIÃO DE LIMIAR 

Este arquétipo nada mais é do que obstáculos que o personagem deve superar.

Nas histórias míticas, são figuras como a esfinge e suas charadas, guardas de lugares que o herói precisa acessar e podem até ser capatazes do vilão principal. Ou testes do mentor para ver a determinação do herói em conseguir seu objetivo.

Em narrativas mais contemporâneas, os guardiões do limiar se revelam como pessoas próximas que nos impedem de atingir nossos objetivos, representando sempre obstáculos.

Função dramática: testar.

ARAUTO 

É o mensageiro, aquele que leva o chamado à aventura ao herói, ou traz uma informação que irá mudar o mundo do protagonista.

Vogler usa o exemplo do deus Hermes, na mitologia grega, que tem essa função de arauto. Veja só:

“No começo da Odisseia, Hermes, a pedido de Atena, leva uma mensagem de Zeus à ninfa Calipso, para que ela liberte Odisseu (Ulisses). O aparecimento de Hermes como Arauto é que põe a história em movimento.”

O arauto pode ser um carteiro, um informante, um amigo que conta uma informação que muda tudo etc.

Função dramática: motivar à ação.

CAMALEÃO

Talvez estes sejam meus personagens favoritos. Afinal de contas, eles mudam de aparência ou estado de espírito para o herói e para o público.

Às vezes, achamos que eles têm um posicionamento ou são de uma forma, mas se mostram de outro. Podem ser dúbios, ou daqueles que têm duas caras, ou são mutantes em suas características. Quem sabe, no meio da história, podem mudar sua lealdade, serem traidores. Apenas para depois revelarem que fizeram o que fizeram por uma boa causa, ou não. Enfim, as possibilidades são infinitas.

Função dramática: trazer dúvida e suspense à história.

SOMBRA 

O arquétipo de personagem da sombra representa a força opositora ao herói. Em termos gerais, o vilão. Mas não só.

“As Sombras podem ser todas as coisas de que não gostamos em nós mesmos, todos os segredos obscuros que não queremos admitir, nem para nós mesmos.”

Quase sempre, o personagem que representa a sombra (quando existe um que represente) tem suas habilidades opostas ao do herói. Os interesses de ambos entram em conflito.

Por exemplo, o Batman é um cara ordeiro, cinzento e que procura combater o crime. O Coringa é caótico, colorido e um criminoso. Pronto, temos duas energias contrastantes.

Em uma história realista, poderíamos ter um personagem que luta contra a depressão. Sua sombra, no entanto, é seu cônjuge que não só não entende como alguém pode ter essa doença, como é uma pessoa extrovertida, cuja personalidade expansiva oprime a do parceiro(a).

Pronto, temos uma sombra.

Função dramática: desafiar o herói e apresentar a ele um oponente à altura em sua luta.

PÍCARO

Provavelmente, o arquétipo de personagem mais fácil de explicar.

Trata-se daquele personagem que gosta de pregar peças, é inquieto e procura sempre a mudança.

“Todos os personagens de uma história que são principalmente palhaços ou manifestações cômicas expressam esse arquétipo.” 

Há inclusive um gênero de histórias dedicado a este arquétipo. O Herói Picaresco é uma figura constante em mitos e em contos de fadas. 

Função dramática: alívio cômico.

Eu superior 

É uma espécie de personagem-projeção no qual o protagonista se espelha e deseja se tornar. 

Pode também ser, no final das contas, um cargo ao qual o protagonista almeja. Algo idealizado. Como alguém que sonha em ser rei, mas vê o reino ruir e, no futuro, consegue uni-lo novamente. O herói atinge seu eu superior.

Função dramática: idealização a ser atingida.

Aplicação prática dos arquétipos na ficção

Quem sabe você esteja se perguntando: ok, mas o que eu faço com isso? O que os arquétipos na ficção têm a ver com saber se tenho personagens secundários demais?

Vou deixar uma espécie de exercício para você. 

1) Se ainda não tiver uma história, pense nela e crie seus personagens (se quiser um método de criação de persongens profundos, veja este vídeo). Se já tiver eles criados, pule para o próximo passo.

2) Em seguida, tomando a lista de arquétipos na ficção, veja em quais deles seus personagens se encaixam. Talvez você possa até reproduzir o desenho do esquema. Fiz isso uma vez, olha como ficou:

Exemplo de aplicação de arquétipos na ficção.
2018. Registro de um livro que jamais vou publicar, mas foi um ótimo exercício.

3) Por fim, veja se tem muitos personagens que se encaixam em um arquétipo só. Se tiver, procure variar as personalidades ou combiná-los em menos personagens. O importante é ter pessoas diferentes, com quem os leitores possam se encantar.

Pronto, eis a aplicação prática do esquema.

Se você quiser se aprofundar nos arquétipos, recomendo que leia o livro A jornada do escritor, Christopher Vogler. A parte dedicada aos personagens realmente vale à pena.

***

E aí, o que achou? Deixe sua opinião nos comentários.

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  • Como introduzir um personagem na história?
  • De que forma criar uma personalidade única?
  • E será que ele vai ficar verossímil?
  • Os leitores vão gostar dos meus personagens?
  • Eles ficarão na memória de quem leu o livro?

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2 comentários

Michelle · 13 de julho de 2020 às 3:32 pm

Amei… Só faltou falar dos Aliados em um tópico.

    Vilto Reis · 15 de julho de 2020 às 5:18 pm

    Oi, Michelle. Obrigado. Na verdade, quase todos os arquétipos podem servir de aliado. Por exemplo, Sancho Pança é um aliado e ao mesmo tempo pícaro para Dom Quixote. Mas, concordo, faltou eu criar um tópico para explicar isso.

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