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As 22 regras da Pixar aplicadas à escrita de contos

Vilto Reis
Escrito por Vilto Reis em 17 de junho de 2020
As 22 regras da Pixar aplicadas à escrita de contos
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As 22 regras da Pixar são bem conhecidas na internet, mas inspirado por uma matéria que saiu na Revista Dragão Brasil #155 — sobre as regras adaptadas para mestres de RPG —, resolvi escrever uma versão das regras para a escrita de contos.

Afinal de contas, a Pixar é certamente uma das melhores contadoras de histórias da atualidade. Uma verdadeira referência.

Se você não sabe, a empresa é famosa por ter produzido filmes como:  

  • Toy Story (1995);
  • Monstros S.A. (2001);
  • Procurando Nemo (2003);
  • Os incríveis (2004);
  • Up – Altas Aventuras (2009); 
  • Divertida Mente (2015);
  • Entre outros.

O sucesso alcançado com o público infantil e adulto — subvertendo a ideia de que animações são apenas para crianças — aponta para o fato de que eles são bons no que fazem.

Então um dia, uma das criativas da Pixar, Emma Coats, tuitou 22 dicas para criar histórias como eles criam. Seja para o cinema ou para a publicidade.

E agora você pode aplicar também na escrita de contos. Espero que isso ajude você!

As 22 regras da Pixar aplicadas à escrita de contos

Imagem com os personagens do filme Toy Story - um exemplo de aplicação sobre as 22 regras da pixar.
Toy Story, o primeiro sucesso da Pixar.

Para cada regra, coloquei a citação com o tuíte da Emma Coats antes e, depois, meus comentários. 

Vamos a elas:

1) O personagem deve tentar

Um personagem deve se tornar admirável pela sua tentativa, mais do que pelo seu sucesso.

Na ficção, assim como na vida, os personagens se expõem a erros. Mas é preciso se arriscar, lutar por alguma coisa. Em um espaço tão curto como o conto, isso precisa acontecer de forma mais acelerada. Embora você não deva esquecer que cada ação deve ter uma consequência.

2) Quem é o seu público?

É preciso manter em mente o que te cativa como se você fosse parte da público, e não pensar no que é divertido de fazer como escritor. As duas coisas podem ser bem diferentes.

Para mim, as armadilhas que mais pegam escritores são: 1) a da linguagem; e 2) a da pesquisa.

Quando você se fascina pela linguagem, esquece que é importante ter uma história bem desenvolvida.  Ou acha que utilizar “palavras bonitas” fará de você um grande escritor.

Outra armadilha é a da pesquisa. Não é por que você gastou meses pesquisando que deve colocar tudo no livro. Foque somente no essencial para a trama. Ainda mais num conto!

3) Escreva e não fique conjeturando

A definição de um tema é importante, mas você só vai descobrir sobre o que realmente é a sua história, quando chegar ao fim dela. Então reescreva.

Às vezes, você pensa em um tema antes de começar a escrever, mas a história também toma seus caminhos. A vantagem dessa questão da criatividade é que o conto é curto. Então você pode se arriscar e experimentar mais histórias diferentes.

4) Estrutura que serve para um conto

Era uma vez um/uma________. Todo dia,__________. Um dia, então__________. Por causa disso, __________. Por causa disso__________. Até que finalmente_______.

Essa é uma das minhas preferidas entre as 22 regras da Pixar. Pois se você pensar, dá para encaixar qualquer ideia em uma estrutura como esta. Depois é só escrever.

5. Menos é mais

Simplifique. Tenha foco. Combine personagens. Não desvie do principal. Você sentirá como se estivesse perdendo material valioso, mas ficará mais livre.

Já peguei tramas de escritores iniciantes que eram tão cheias de ramificações e reviravoltas que o próprio autor se perdeu. Depois veio pedir minha ajuda para “arrumar” o livro.

Principalmente, em um conto, simplifique. Aliás, não esqueça de definição de conto. Uma história curta, com uma unidade dramática e poucos personagens. Seja direto.

6) Personagens devem ser postos à prova

No que os seus personagens são bons e o que os deixa confortáveis? Coloque-os no lado oposto a isso. Desafie-os. Como eles lidarão com essas situações?

Sim, é isso que faz o público “pagar pra ver”. Como o personagem sairá dessa situação? Não necessariamente é algo épico, mas algo como: “e se um super-herói resolvesse abandonar a vida de heroísmo e ter uma vida normal?” Se você pensou no primeiro filme de Os incríveis (2004), pensou certo.

7) Crie o final antes

Crie o final antes de saber como será o meio. Sério. Finais são difíceis, então adiante o seu trabalho.

Se você procurar por dicas de escrita de Edgar Allan Poe, também encontrará esta dica. O conto exige um final de algum impacto. Talvez uma grande virada ou uma catarse do personagem. E quando você tem esse final projetado, consegue escrever melhor.
 

A melhor família de super heróis voltou ao cinema em Os incríveis 2 (2018).

8) Faça isso ou nunca vai publicar 

Termine a sua história e deixe-a, mesmo que não seja perfeita. Siga em frente. Faça melhor da próxima vez.

Sim, todos os primeiros textos dos escritores são uma porcaria. Embora sejam necessários para o aprendizado. Novamente, a vantagem do conto é você poder escrever do começo ao fim de forma mais rápida. Pratique muito, mas não fique praticando a vida inteira.

Chega uma hora que precisa publicar.

9) Use esse truque quando tiver um branco 

Quando você tiver um “branco”, faça uma lista do que não irá acontecer no andamento da história. Muitas vezes, é assim que surge a ideia de como continuar ela.

Mais uma dica fantástica entre as 22 regras da Pixar. Até lembra um exemplo que sempre dou, o da fila de ideias.

As ideias estão enfileiradas na sua cabeça, quando você as coloca para fora, vai tirando as que estão mais na frente até encontrar a que deve ser usada.

Portanto, sim, escreva sobre o que não fazer, pois a solução virá.

10) Use o que você gosta nas histórias que consome 

Separe as histórias que você gosta. O que você vê de bom nelas é parte de você. É preciso identificar essas características, antes de usá-las.

Outro caminho incrível para você encontrar as histórias que deseja escrever. Os filmes, livros, HQs, peças de teatro que você gosta têm elementos que você pode usar. Coloque tudo isso no caldeirão da sua criatividade e escreva. Só não exagere ao colocar tudo em um conto, como já comentei.

11) Tire da cabeça. Coloque no papel

Colocar no papel permite que você comece a consertar as falhas. Se deixar na sua cabeça até aparecer a ideia perfeita, você nunca compartilhará com ninguém.

Isso vale para qualquer coisa que você for escrever, mas no caso do conto, às vezes, ficamos mantendo na cabeça. Por achar que a história é curta, não escrevemos. Na verdade, agindo assim, acabamos perdendo a oportunidade de desenvolver ainda mais essa história. Portanto, escreva-a.

12) Tire o óbvio do caminho 

Ignore a primeira coisa que vier a sua cabeça. E a segunda, terceira, quarta, quinta – Tire o óbvio do caminho. Surpreenda a si mesmo.

Inovar na escrita de contos não é nada fácil, mas você precisa dar o seu melhor aqui. E uma forma de tirar as ideias óbvias do caminho é usar a dica anterior, colocando-as no papel. É importante também lembrar que se você deseja escrever contos, deve ler vários contos neste gênero.

13) Personagens devem se posicionar

Dê opiniões aos seus personagens. Passivo/maleável pode parecer bom enquanto você escreve, mas é um veneno para o público.

Quando você define os posicionamentos dos personagens, abre espaço para uma possível mudança durante o conto. Ou pode ir revelando aos poucos como o personagem chegou àquele posicionamento. Isso funciona muito bem em um conto.

14) Saiba o porquê de escrever o que está escrevendo

Por que você precisa contar essa história? Qual é o combustível que queima dentro dela, e do que ela se alimenta? Esse é o coração da história.

Isso é fundamental você lembrar nas horas que bater aquela insegurança, ou um desânimo, uma vontade de desistir.

Acredite, quanto mais você criar o hábito de escrever suas histórias até o fim, melhor para você como escritor.

Por isso, lembre o porquê de escrever o que está escrevendo.

Divertida mente (2015) é uma aula sobre nossas emoções.

15) Seja honesto na escrita

Se você fosse o seu personagem, e estivesse na mesma situação, como você se sentiria? Honestidade dá credibilidade para situações inacreditáveis.

Não me venha com a desculpa de: “eu jamais saberia como se sentiria se passasse pelo que meu personagem passou.” 

Um escritor de ficção preciso correr atrás desse sentimento. Se não passou por tal situação, leia livros de quem já passou, pergunte para outras pessoas ou imagine. Afinal, é ficção.

16) Faça o leitor se importar com o personagem 

O que está em jogo? Nos dê uma razão para nos importarmos com o personagem. O que irá acontecer se ele fracassar? Coloque as probabilidades contra o sucesso.

Em um conto, estabelecer isso logo vai ajudar o leitor a imergir na história. Portanto, esta regra é outra entre as 22 regras da Pixar que vale ouro. Por que não a está aplicando ainda?

17) Não descarte seus rascunhos 

Nenhum material é inútil. Se não está funcionando, largue de mão e siga em frente. Ele pode ser útil mais tarde.

Tratando-se de contos então… Você pode experimentar várias ideias. Muitas delas não serão publicadas, mas fica a experiência da aplicação. No futuro, talvez use algo semelhante em outra produção. Portanto, não descarte seus rascunhos.

18) Sem firulas exageradas 

Você deve saber a diferença entre dar o seu melhor e ser espalhafatoso. Histórias são para testar, não para refinar.

Essa tradução ficou um pouco estranha, mas como eu não faria melhor, vou me ater ao sentido. 

Podemos dizer que essa dica dialoga com a número 2, quando tratei da linguagem. Antes de transformar seu texto em um carnaval de linguagem, procure se ater a transmitir bem o sentido que deseja. Isso é o essencial.

19) Coincidências? Só contra seus personagens

Coincidências que coloquem os personagens em problemas são ótimas; as que os colocam fora deles, são trapaça.

Se você assistiu um filme e teve aquele momento que, por “coincidência”, tudo deu certo para o personagem, provavelmente se sentiu traído.  Afinal de contas, o ser humano se atrai pelo conflito e pela curiosidade de saber como ele vai ser resolvido (isso aqui dialoga com a dica 6), portanto, nada de dar uma mãozinha pro personagem. Isso é coisa de escritor preguiçoso.

20) Estude as estruturas 

Exercício: Divida em pedaços um filme que você não gosta, e o reconstrua de forma que ele se torne um bom filme, na sua opinião.

Fazer isso faz bem. E vale também para uma série, um conto, uma HQ, um romance etc. Decompor uma história aumenta sua capacidade de entender como elas funcionam. Por isso, invista neste exercício.

21) Você agiria como seus personagens?

Você deve se identificar com as situações e reações dos seus personagens, e não escrevê-las de qualquer forma. Você agiria da mesma maneira que eles?

Esta é uma continuação da dica 15. Lembra quando falamos de honestidade? Por isso, a escrita é um exercício de empatia. É você se colocando no lugar de outrem.

22) Só deixe o essencial

O que é essencial na sua história? Qual a forma mais curta de contá-la? Se você souber a resposta, pode começar a construí-la a partir daí.

Dentre todas as 22 regras da Pixar, esta é a que mais parece ter sido feita especialmente para contistas, não? No caso do conto, bons cortes farão parte da sua rotina. Um conto bem escrito é aquele que resta só o essencial.

***

E aí, concorda com as 22 regras da Pixar? Dá para aplicar em seus contos? Responda nos comentários.

Se quiser se aprofundar ainda mais no assunto, assine minha série: 5 conteúdos gratuitos para escrever contos.

* As dicas traduzidas foram retiradas do site Comunicadores.info com tradução de @lucaseditor

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6 Replies to “As 22 regras da Pixar aplicadas à escrita de contos”

Bryan Tavares Balbino

Perfeito! Vai me ajudar muito na minha história

Vilto Reis

Fico feliz de ler isso 🙂

Caetano Martins Fernandes

Excelente orientação. Obrigado.

Vilto Reis

Muito obrigado 🙂

Marina

Adorei a matéria. Vou estudar e colocar em prática. Parabens Vilto!

Vilto Reis

É isso aí, Marina. Vai fundo!