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Uma estrutura do anti-herói — será?

Vilto Reis
Escrito por Vilto Reis em 20 de janeiro de 2021
Uma estrutura do anti-herói — será?
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Neste site, já comentamos sobre o anti-herói, além de vários outros textos sobre criação de personagens, mas existiria uma estrutura do anti-herói?

Recentemente, ao assistir o vídeo de animação An anti-hero of one’s own, de Tim Adams, deparei-me com uma proposta do autor.

Para ser sincero, não concordei com todos os pontos. 

Por isso, acredito que seria uma boa discussão aqui para o site.

Abaixo você terá o vídeo em inglês para assistir e, aqui no artigo, a transcrição em português com alguns argumentos meus. 

Veja se você concorda com o autor e vamos continuar esta discussão nos comentários!

Uma animação que explica o que é e propõe uma estrutura do anti-herói

Na animação abaixo, você verá:

  • O surgimento do herói e do anti-herói;
  • Exemplos de anti-herói;
  • Uma estrutura do anti-herói na distopia;
  • E a internalização do ato heróico.

Confira abaixo (e não esqueça de ver a transcrição do áudio após o vídeo com os meus comentários):

Transcrição do vídeo e um pouco mais sobre uma estrutura do anti-herói

Esta transcrição é uma tradução minha com algumas adaptações para o texto funcionar melhor em nosso idioma.

Os trechos que estiverem com recuo e em itálico são a transcrição do vídeo. Já os que estiverem na mesma formatação deste parágrafo que você lê agora, são meus comentários. Vamos lá:

O surgimento do herói e do anti-herói

“O crítico literário Northrop Frye observou uma vez que em nossos primórdios, nossos heróis eram — bem, quase deuses, e conforme a civilização avançava, eles desceram a montanha dos deuses, assim dizendo, e tornaram-se mais humanos, mais falhos, menos heróicos.

De heróis divinos como Hércules, vemos montanha abaixo Beowulf, miraculoso, mas mortal, até líderes exemplares como o Rei Arthur, e os grandes, mas falhos, heróis como Macbeth ou Otelo. Mais abaixo ainda, o improvável, mas eventual herói como Harry Potter, Luke Skywalker ou Soluço, até que alcancemos a base da montanha e encontramos o anti-herói.

Ao contrário do que parece, o anti-herói não é o vilão e não é o antagonista.”

***

O que Tim Adams nos entregou até agora foi uma contextualização. Uma versão breve e resumida que poderíamos encontrar com muito mais profundidade no livro em que Joseph Campbell trata da Jornada do Herói. Mas estamos falando de uma animação, portanto algo mais simples, rápido e didático para entender.

Sobre o movimento de descer a montanha é o que observamos em vários mitos. Neles podemos observar as seguintes fases distintas: divina, heróica e humana. 

Nas três, temos heróis, mas em escalas e feitos diferentes. 

Vamos ver então o que o autor diz sobre o anti-herói.

***

Exemplos de anti-herói

“O anti-herói é na verdade o personagem principal em alguns trabalhos contemporâneos da literatura. 

Guy Montag em Fahrenheit 451, Winston Smith em 1984, que sem querer acabam desafiando aqueles que estão no poder – isto é, aqueles que abusam de seus poderes para alienar a população que acredita que os males da sociedade foram eliminados. 

Heróis são fisicamente fortes ou possuem um tipo de carisma que inspira seus seguidores.

O anti-herói, no entanto, na melhor das hipóteses demonstra uns poucos traços subdesenvolvidos, e na pior das hipóteses é totalmente inepto.”

***

Aqui, em minha opinião, começa um dos problemas do vídeo. 

Os exemplos de anti-heróis que o autor cita são basicamente protagonistas mal-sucedidos de distopias. 

Ora, isso é limitar muito a visão do anti-herói, pois dizer que ele “demonstra uns poucos traços subdesenvolvidos, e na pior das hipóteses é totalmente inepto” é descartar uma série de outros anti-heróis que temos na ficção.

Posso pensar em Han Solo, de Star Wars; Rorschach, de Watchmen; a Mulher Gato; e Constantine; apenas para citar alguns. 

Mas vamos adiante para ver o que vejo como o maior problema do vídeo.

***

Uma estrutura do anti-herói na distopia

“A história do anti-herói geralmente revela algo assim. 

O anti-herói inicialmente se conforma, aceitando ignorante o universo estabelecido. É um típico, inquestionável, alienado membro da sociedade. Ele luta para se conformar, tentando se opor ao mesmo tempo em que, talvez, reúne-se a outros estranhos com quem dará voz a suas questões. Ingênua e imprudentemente, ele compartilha essas perguntas com uma figura de autoridade.

A partir daí, o anti-herói desafia abertamente a sociedade e tenta lutar contra as mentiras e táticas usadas para oprimir a população. Este passo, para o anti-herói, raramente é uma questão de bravura, sabedoria ou oposição heróica.  Talvez o anti-herói lute e consiga destruir o governo opressor, com um conjunto de sorte improvável. Talvez ele ou ela fuja, escape para lutar um outro dia.

Com muita frequência, no entanto, o anti-herói é morto, ou sofre uma lavagem cerebral para voltar à conformidade com as massas.

Nenhum triunfo heróico aqui, nenhum levante individual de coragem contra as instituições impessoais de um mundo moderno, inspirando outros a lutarem, engenhosamente burlando e derrotando o enorme exército do império do mal.”

***

É aqui que precisamos repensar algumas coisas. 

A distopia não é o único tipo de história em que podemos ter esta forma de personagem. E nem é como se o que o autor propôs como uma estrutura do anti-herói dependesse deste gênero. 

Aliás, há um conjunto de características do anti-herói que apresentei no artigo sobre o assunto. Por exemplo:

  • Não são modelos, embora às vezes nós secretamente gostaríamos de nos comportar como eles;
  • Quase sempre são sem glamour e sem atrativos no caráter, bem como na aparência;
  • Podem ser motivados pelo interesse próprio e pela autopreservação, mas geralmente há uma linha que os anti-heróis não cruzam, o que os diferencia dos vilões;

Assim sendo, as possibilidades de criação de anti-heróis são muito maiores do que as apresentadas no vídeo.

Vejamos como Tim Adams conclui a animação.

***

A internalização do ato heróico

“Nossos contadores de história ancestrais acalmaram nossos medos de impotência nos dando Hércules e outros heróis fortes o suficiente para lutar contra demônios e monstros que suspeitávamos assombrar a noite além de nossas fogueiras.

Mas eventualmente, nos demos conta que os monstros não estavam lá fora, eles estavam dentro de nós.

O maior inimigo de Beowulf foi a imortalidade. De Otelo, o ciúme. De Soluço, insegurança. E em contos de anti-heróis ineficazes, em histórias de Guy Montag e Winston Smith, encontram-se os alertas dos contadores de histórias contemporâneos jogando com medos muito primitivos: que não somos fortes o suficiente para vencer os monstros. Somente desta vez, não os monstros afugentados pelas fogueiras, mas todos os monstros que primeiramente construíram as fogueiras.”

***

Ele reafirma a limitação de sua definição ao listar “contos de anti-heróis ineficazes”. Fica evidente que para o autor é a isso a que se limita um anti-herói: ser ineficaz.

Outro ponto que talvez tenha ficado esquecido na análise do anti-herói é que ele está muito mais próximo de nós do que o herói. Assim como o anti-herói, nós somos contraditórios, de moral vacilante e não estamos dispostos a morrer por um ideal. 

Em outras palavras, dançamos conforme a música.

Enfim, o vídeo não é ruim, há exemplos bacanas e a animação é excelente, mas deixa de tratar de pontos essenciais desta figura emblemática.

Propor uma estrutura do anti-herói então? Nem pensar.

***

Mas e aí, gostou deste artigo? Concorda? Discorda? Coloque nos comentários!

E, se quiser continuar estudando sobre escrita, recomendo minha série 5 Conteúdos gratuitos para ESCREVER UM LIVRO.

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