fbpx

Ironia dramática — Uma ferramenta incrível para criar histórias

Publicado por Vilto Reis em

Estátuas gregas. Nada pode remeter mais a Ironia Dramática do que as peças gregas.

Muitas histórias gregas são consideradas modelos para as tramas de narrativas de nossos dias. Você sabia que em grande parte isso acontece por causa da ironia dramática?

Sim, este é o elemento que faz com que uma história de mais de 2 mil anos atrás ainda fale conosco.

Este tipo de ironia mostra-se em vários tipos e formas. 

Mas como funciona?

Continue lendo este artigo para aprender o que é ironia dramática, exemplos de uso e como aplicar em sua escrita.

O que é ironia dramática?

Foto por Kyle Head

Talvez possamos começar destacando o que não é esta técnica, ou estrutura. Ironia dramática não é:

  • Uma exclamação de “oh, como a vida é irônica”;
  • Ou um tom de voz empregado por uma pessoa que ironiza outra;
  • Muito menos, um ataque de uma pessoa dirigido a um grupo.

A ironia dramática dialoga com o sentido da expressão: “ironia do destino.”

Por exemplo, o sujeito que separa-se da esposa, jurando para si mesmo que nunca mais quer vê-la, mas toda vez que busca o filho que está com ela, não pode evitar. Pior, acaba se apaixonando por uma pessoa que mora quase do lado da ex.

Agora, aplicando esta situação a uma história, seja uma peça ou um livro.

Alguém poderá pensar: isso nunca aconteceria na vida real!

Mas a maioria das pessoas se imaginará dentro desta história pois, em algum ponto, haverá um grau de identificação.

De tal forma que atinge-se um tom tragicômico. 

Queremos rir, ficamos presos a esse enredo porque lá no fundo imaginamos que poderia ser um de nós vivendo este drama. 

Isso é ironia dramática.

Vamos então ver alguns tipos de ironias?

Os 6 Tipos de ironia dramática, segundo Robert Mckee, e exemplos para cada um deles

Robert McKee

Robert McKee é um dos mais importantes professores de escrita criativa do mundo.

Já foi inclusive interpretado no cinema no filme Adaptation (2002), dirigido por Spike Jonze, em que seu personagem ajuda um jovem escritor — é um dos filmes que eu deveria ter citada nesta lista de filmes para escritores.

Sua especialidade é roteiro de cinema. Entretanto, seus conhecimentos podem ajudar os escritores.

No livro Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro (ver na Amazon), encontramos as 6 ironias dramáticas que o autor considera possíveis (pág. 284, Arte & Letra, 2017).

Vamos ver cada um deles:

  1. O personagem principal finalmente consegue o que quer… mas tarde demais.
    Ex.: Otelo, de Shakespeare. O mouro finalmente consegue o que sempre quis: uma mulher que fosse honesta com ele e que nunca o traísse… mas quando descobre isso, é tarde demais, pois acabou de matá-la.

  2. O personagem principal é empurrado cada vez mais longe de sua meta… para descobrir que ele estava sendo levado diretamente para ela.
    Ex.: Sagas como a da Odisseia, de Homero, na qual Ulisses parece cada vez mais distante de voltar para casa, mas acaba sendo levado direto para Ítaca.

  3. O personagem principal joga fora o que depois descobre ser fundamental para sua felicidade.
    Ex.: Por exemplo, Christopher McCandless em Na natureza selvagem, de Jon Krakauer, que busca uma razão de existir, mas quando a descobre, vê que foi justamente o que abandonou: sua família etc.

  4. Para alcançar uma meta, o personagem principal inconscientemente dá passos que o afastam dela.
    Ex.: Típico de livros ou filmes de investigação em que vemos o detetive cada vez mais se afastando da pista.

  5. A ação que o personagem principal faz para destruir algo torna-se exatamente o necessário para destruir-se a si próprio.
    Ex.: Os filmes da 2ª trilogia de Star Wars, que mostram a queda de Darth Vader.

  6. O personagem principal vem a possuir algo que certamente o fará miserável, faz de tudo para se livrar disso… para descobrir que isso é o que lhe fará feliz.
    Ex.: Histórias em que o herói acha que seu super poder é uma maldição, mas depois se torna uma “benção”, tipo Hulk.

Édipo Rei — explicando melhor

Ironia dramática em "Édipo Rei", de Sófocles
Édipo e a Esfinge, por Francois Xavier Fabre

Vamos recapitular a história de Édipo Rei contada na peça escrita por Sófocles.

Ainda bebê, Édipo foi abandonado para morrer após seu pai, o rei Laio de Tebas, descobrir que o destino do filho era matá-lo.

Foi encontrado por um pastor e, posteriormente, adotado pelo rei de Corinto. Quando adulto, em visita ao oráculo próximo a Tebas, descobriu seu destino: matar seu pai e casar com sua mãe.

Saiu dali em direção à cidade de Tebas e, sem saber que era seu pai, acabou o matando após discutir com o sujeito em uma encruzilhada.

Mais adiante, encontrou a Esfinge e venceu o enigma proposto por ela, tornando-se um herói para os tebanos. A seguir, foi declarado rei da cidade e casou-se com a rainha viúva, inocente sobre ser sua mãe. Ele teve dois filhos e duas filhas com Jocasta. 

Anos depois, ao descobrir-se a verdade, sua mãe-esposa se enforcou. Édipo, por sua vez, perfurou os próprios olhos.

Trágico, certo?

Qual ironia dramática se encaixa aqui segundo as propostas de Robert McKee?

Temos a ironia que se aplica ao Rei Laio:

A ação que o personagem principal faz para destruir algo torna-se exatamente o necessário para destruir-se a si próprio.

Ou seja, ele tentou destruir/matar o que o mataria, mas acabou colocando em prática exatamente o que o destino precisava para os eventos da tragédia.

E se ele tivesse criado o filho próximo de si, teria sido morto?

Esta é uma pergunta que o escritor deixa para o leitor/público se fazer.

Afinal de contas, o escritor inclui parte da ironia na trama, mas precisa que o leitor/público entre com a identificação para completar o ciclo.

A ironia está lançada, não a sorte.

Conclusão e Modo de Usar

Para usar a ironia dramática a seu favor, você deve criá-la casualmente, apresentando-a como se o personagem não pudesse escapar daquele destino.

O público entenderá a ideia. Melhor ainda, vai se ligar a ela.

Isso não é uma fórmula. Apenas a ficção copiando a vida.

É inevitável!

Irônico, não?

Categorias: Artigos

0 comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.