Os 5 modos narrativos — Ou como usar todo o potencial da literatura ao escrever uma cena

Publicado por Vilto Reis em

Os modos narrativos são como esqueleto de dinossauro desta imagem. Cada osso depende do outro para manter a estrutura funcionando.

Para escrever uma boa cena é preciso dominar os 5 modos narrativos.

Talvez ninguém nunca te falou isso, mas você certamente já ficou em dúvida sobre o que estava faltando em determinada cena que escreveu.

Aquela sensação de insegurança. Você não sabe o que fazer.

Bom, neste artigo você vai aprender como solucionar este problema.

Ao dominar os modos narrativos, seu leitor ficará imerso em sua escrita e certamente não conseguirá desgrudar da sua história.

Vamos começar entendendo cada um deles individualmente.

Os 5 modos narrativos fundamentais para escrever uma boa história

O que estou chamando aqui de “modo narrativo” são as variações que o narrador faz para contar a história.

Ora, o personagem faz uma ação, depois pensa, então fala alguma coisa etc.

Escritores iniciantes costumam usar demais um ou dois dos modos e esquecer dos outros. 

Algumas histórias (principalmente, contos) até pedem isso. 

Antes de vermos como um texto equilibrado trabalha com os modos, vamos entender cada um individualmente.

Ação

Eu já disse aqui no site que “sem conflito não há história”. Este é um fato inegável. Uma mera descrição de um ambiente não é uma história.

Logo, se preciso de conflito, haverá ação. Não no sentido de “filmes de ação”. Mas quando você escreve “Fernando sentou no banco da praça”, está descrevendo uma ação.

A história pode até conter poucas ações. Talvez se passe quase toda na mente do personagem, mesmo assim, não há como fugir da necessidade deste modo.

Descrição física

O que defino aqui como “descrição física”, muita gente chama simplesmente de “descrição”. 

É comum você ouvir: não gosto de tal autor porque ele faz muitas descrições. E embora eu não possa dizer que se deve fazer x ou y de linhas de descrições físicas, pois cada um deve descrever segundo o que considerar necessário, não existe nada pior do que zero descrições.

(A não ser, é claro, que seja intencional, como o Conto (Não Conto), do Sérgio Sant’Anna).

É preciso estabelecer as descrições físicas tanto do personagem como do espaço. Inclusive é possível utilizar a percepção que o personagem tem de um espaço para revelar seu estado emocional.

Ou em vez de dizer que um personagem é desleixado, mostrar o quarto dele, revelando esta característica.

Já no que se refere à descrição do próprio personagem, é importante fugir do que chamo de “ficha de academia”. Nada de dizer que ele é “forte, de ombros largos e muito alto”. Em vez disso, em dado momento diga que ele quase bateu com a cabeça no alto do umbral da porta. Depois que ele ergueu alguma coisa com um braço etc.

 E retomando nosso exemplo. Veja só, após a ação, o espaço:

“Fernando sentou no banco da praça. Tirou o chapéu e acendeu um cigarro. Apoiou os cotovelos sobre as pernas magras.

À sua frente, em um canteiro, irmãos gêmeos discutiam sobre quem ficaria com a pá e quem com o baldinho de areia. O cheiro de pipoca enchia o ar, embora ele não visse o carrinho e nem o pipoqueiro. No céu, alguns urubus faziam voos circulares, como se ele fosse carniça.”

Pensamento/lembrança 

Talvez a grande mudança que você verá da literatura do século XV, por exemplo, em relação à do século XX, seja o quanto a história deixa de ser contada externamente para se tornar interna.

Esta mudança de focalização abriu margem para inserirmos os pensamentos e as lembranças dos personagens.

Em outras palavras, as narrativas se tornaram mais psicológicas. 

Obrigado, Dostoiévski.

Desta forma, foram acrescentadas mais camadas de interpretação e profundidade. E uma boa história só tem a ganhar com isso.

Pense em nosso exemplo. 

Fernando está na praça e, depois de estabelecer a descrição física, ele pode mergulhar em uma memória.

“Foi como viajar no tempo, do banco da praça ao primeiro dia após se separar de Larissa e de sua filha. Aquele passeio sem rumo pelo parque, depois pelas ruas do centro, até dar-se por si sobre a Ponte dos Arcos e receber o convite. Poderia se livrar do seu fardo se aceitasse fazer parte de uma ordem secreta.”

Resumo

Outro assunto que já toquei aqui no site é cena e sumário, mas prefiro chamar sumário de resumo. 

Basicamente, um resumo é quando em vez de mostrar cena a cena um grande período de tempo da história, você o comprime em poucas linhas.

Talvez seja mais fácil demonstrar do que explicar.

Voltemos ao nosso exemplo:

“Os anos que se seguiram foram de estudo aprofundado. Seus cabelos caíam no mesmo ritmo em que subia grau a grau nos mistérios da ordem. À cada vez que via Larissa, ao buscar a filha, assustava-se com o quanto ela envelhecia, deixando de ser a jovem esguia e de olhos ambiciosos pela qual se apaixonou para se recrudescer em uma mulher de meia idade cansada e desesperançada, cheia de rugas. Morreu  três anos atrás.”

Diálogo 

Meu artigo sobre diálogo é um dos mais lidos aqui do site, o que me surpreende.

Ainda que, tenho percebido, quando algum escritor iniciante domina este modo narrativo, costuma usá-lo em tudo. Até esquecendo dos demais.

Certamente, este é um dos modos mais poderosos. Por meio do diálogo, é possível fazer a história avançar, revelar os personagens e acrescentar sutilezas ao texto.

Mas, não esqueça, além do aspecto oral dos diálogos, você pode usá-los intercalando com as descrições físicas.

Veja a última parte do nosso exemplo.

“De volta ao presente, percebeu a presença dela. Não podendo se conter, Fernando bateu o pé direito no chão, tentando bani-la, mas sua força de vontade foi fraca.
— O que você quer? — resmungou.
— Vingança — Larissa respondeu. Sentava-se ao seu lado, olhando os gêmeos brincarem.
— Se não me deixar em paz, vai se arrepender.
Ela virou-se para ele, a pele amarelada como um defunto, onde deveria estar o olho direito, um ninho de vermes eclodia, e deu uma gargalhada sem abrir a boca. Desapareceu.
Fernando acariciou o anel da ordem. Estava tranquilo, pelo menos até pensar em sua segunda esposa.”

Como equilibrar os 5 modos narrativos

Em minha defesa, não planejei o exemplo acima. Foi algo que surgiu conforme fui explicando os modos narrativos.

Mas se você voltar a ele, verá que várias partes desses modos estão mesclados. É aí que entra a habilidade do grande escritor. 

Você pode misturar ação com descrições físicas, fazendo com que o personagem vá dialogando com outro enquanto se lembra de algo passado. 

Funciona como um esqueleto, em que cada osso depende do outro para o corpo poder se sustentar.

Digamos que esta seja “a grande arte do escritor ao criar uma cena.” 

E, é claro, considerando que toda cena deve ter início, desenvolvimento e fim. Vale acrescentar que você pode se fazer as cinco perguntinhas básicas para saber se sua cena está completa:

  • Quem?
  • Quando?
  • Onde?
  • O quê?
  • Por quê?

Não necessariamente nesta ordem.

Que tal examinarmos o exemplo de outro escritor?

Como George R. R. Martin trabalha em uma cena

George R. R. Martin é uma referência por aqui. Tanto por sua habilidade de criar mundos fantásticos como em sua escrita magnética.

Não por acaso, se nos determos em cenas de seus livros, veremos uma habilidade muito grande em manipular os modos narrativos.

Veja abaixo este excerto de A tormenta de espadas, Vol. 3 das Crônicas de Gelo e Fogo. Escolhi uma cor para cada um dos modos narrativos:

  • Ação
  • Descrições físicas
  • Pensamento/lembrança
  • Resumo
  • Diálogo
  •  

    “Um vento vindo do leste soprou através de seus cabelos emaranhados, tão suave e perfumado quanto os dedos de Cersei. Ouvia aves cantando e sentia o rio deslocando-se debaixo do barco, à medida que os movimentos dos remos os aproximavam da pálida alvorada cor-de-rosa. Depois de passar tanto tempo na escuridão, o mundo era tão encantador que Jaime Lannister se sentia tonto. Estou vivo, e bêbado de sol. Uma gargalhada atravessou seus lábios, súbita como uma codorna espantada do esconderijo.
    – Silêncioresmungou a moça, carregando o cenho. Carrancas adequavam-se mais ao seu rosto grosseiro do que um sorriso. Não que Jaime a tivesse visto sorrir alguma vez. Divertia-se imaginando-a com um dos vestidos de seda de Cersei em vez do justilho de couro com tachas que envergava. Tanto faz vestir de seda uma vaca ou essa aí.”

    Ficou bem colorido, não é? Porque o Martin sabe equilibrar bem uma cena.

    Aliás, temos o personagem Jaime Lannister sendo escoltado por Brienne de Tarth, uma espadachim por quem ele tem desprezo. E veja como o narrador expõe toda a cena sob o ponto de vista dele para que isso fique claro.

    É muito bem feito.

    Agora você deve passar a notar esses modos naquilo que lê. Fica o exercício.

    Considerações finais sobre os modos narrativos

    O bom escritor domina os fundamentos. Tem várias ferramentas a seu dispor. Não fica repetindo recursos.

    Por isso, se você deseja escrever bem, procure dominar os modos narrativos.

    Como sempre digo, a técnica literária existe para amplificar seu talento. Se você duvida, estude-a e verá os resultados em sua escrita.

    ***

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