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Narração e descrição – Como a técnica da Escrita Perigosa deixará suas histórias marcadas nas mentes de seus leitores

Publicado por vilto em

Escrita perigosa em narração e descrição

É possível criar narração e descrição que marca a mente dos leitores?

Trata-se de uma técnica que pode ser aprendida, não é  talento nato. Afinal de contas, se você já avaliou seu Mindset, sabe que pode aprender qualquer coisa, desde que se dedique.

E neste texto, vou revelar uma técnica poderosa para produzir um efeito de choque em seus leitores.

Grandes escritores, como Chuck Pahlaniuk e Amy Hempel, usam este efeito. E é impossível “passar batido” por um texto deles.

Continue lendo este artigo para aprender a técnica da Escrita Perigosa.

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Tom Spanbauer e a origem da Escrita Perigosa

Tom Spanbauer em foto do site Nationale

O termo “Dangerous Writing” (Escrita Perigosa), cunhado pelo escritor Tom Spanbauer, faz referência a uma série de técnicas literárias.

Técnicas que dialogam com o minimalismo narrativo.

Para entendermos de onde Spanbauer tirou esta ideia, precisamos voltar à década de 80.

Na Universidade de Columbia, estudando estrutura da linguagem, ele acabou topando com os princípios do editor Gordon Lish.

Este editor infame ficou conhecido por cortar várias partes dos trabalhos dos escritores. Uma amputação impiedosa atrás da outra, mas não sem uma lógica.

Inclusive, atribui-se parte do sucesso de Raymond Carver como escritor à revisão e até reescrita de algumas partes de sua obra realizada por Gordon Lish.

Basicamente, as ideias reunidas e ensinadas por Tom Spanbauer seguem os seguintes princípios:

  • Nada de abstrações;
  • Corte de todos os advérbios e adjetivos ou clichês;
  • Dispensa de medições, substituindo por referências comparáveis de idade, distância ou tempo.

Vamos explicar com mais profundidade a seguir.

Se até escritores como Chuck Pahlaniuk (veja dicas do autor de Clube da luta aqui) e Amy Hempel utilizam a Escrita Perigosa, é por que ela tem muito a acrescentar.


O conceito ensinado nesta poderosa oficina literária

Foto de Tyler Nix.

As oficinas de Spanbauer acontecem em sua própria casa, em Portland, Oregon.

Talvez isso seja uma metáfora para o conceito central da Escrita Perigosa: explorar as partes mais desconfortáveis de sua mente.

Ao expor sua casa, ele se expõe.

A ideia é que os alunos confrontem sua dor e vergonha, escrevendo sobre o que os atrapalha ou embaraça.

Tom Spanbauer define como:

“[…] uma invenção através da qual você pode entender sua própria humanidade”.

Por que isso é desafiador?

Bom, ao escrevermos, acreditamos que extraímos histórias que vêm de dentro de nós, mas se desenvolvem fora. No entanto, quando as expomos, os leitores podem ter a impressão de que os personagens somos nós.

Isso acaba sendo um convite ao julgamento. E quem gosta de ser julgado?

Evidente que Tom Spanbauer não espera que seus alunos escrevam autoficção sombria.

Ele considera importante que se tenha “permissão para mentir.”

Por exemplo, na oficina, ele discute a obra Estudo segundo o retrato do Papa Inocêncio X de Velázquez, uma pintura de Francis Bacon.

Ao reinventar o quadro original de Velázquez, Bacon parece transformar o papa em um monstro uivando. Ou seja, acaba criando uma distorção do sagrado, emulando o efeito do medo e horror produzidos pelas duas superpotências dominantes no pós-Segunda Guerra Mundial.

>>> Você sabia que pode fazer uma oficina literária sem sair de casa? Veja mais aqui!

O objetivo da Escrita Perigosa é começar com algo cru. Em seguida, colocá-lo de trás para frente, distorcer, torcer, transformar em algo mais escandaloso. Escrever uma verdade que a maioria dos escritores não têm coragem de dizer transformada em sua própria mentira.

Mas como aplicar na prática?


Dicas de uso da Escrita Perigosa para ajudar você com narração e descrição

Foto por Christopher Sardegna.

Abaixo você confere uma lista de dicas e técnicas ensinadas na oficina de Escrita Perigosa de Tom Spanbauer.

Chorus ou aumento na quantidade de fontes sonoras

Em vez de utilizar a palavra específica, use o Chorus.

Tudo deve funcionar como em uma sinfonia, porém aumentando a quantidade de fontes sonoras.

Cada elemento da narração e descrição precisa ilustrar algum aspecto do tema da história.

Em The Harvest — conto de Amy Hempel lido na oficina (infelizmente sem tradução para o português) disponível em inglês aqui —, cada detalhe impõe a mortalidade da personagem que luta para não perder a perna.

Burnet tongue ou Língua queimada

Basicamente, uma forma de desacelerar a leitura por meio de uma frase que parece errada e distorcida.

De forma que o leitor tenha que ler mais de perto, duas vezes, não somente se deter em imagens abstratas, advérbios, adjetivos e clichês.

Recording angel ou Gravação anjo

Seria uma descompactação de detalhes.

Em vez de dizer que o personagem é alto ou triste, você só faz narração e descrição de ações e aparências de forma que o leitor julgue como aquele personagem é. Sem que o autor exclua a percepção do leitor por se ancorar em um adjetivo preguiçoso.

Em geral, os escritores produzem uma infinidade de descrições e detalhes inúteis. A ideia aqui é que você produza parágrafos de sentença única, cada um invocando sua própria reação emocional.

É um pouco do velho “Show, Don’t Tell” de Hemingway levado ao extremo.

Em The Harvest, Amy Hempel impressiona.

A narradora poderia dizer que o rapaz é um idiota. Em vez disso, quando o vemos segurando um suéter encharcado com o sangue da namorada, ele diz: “Você vai ficar bem, mas esse suéter está arruinado”.

Going on the body ou Ir ao o corpo

Por meio dos ensinamentos de Gordon Lish, Spanbauer incorporou a expressão “ir ao corpo”.

O objetivo é que a escrita produza uma reação física empática, envolvendo o leitor em um “nível intestinal.”

Sem advérbios ou medições

O minimalismo não lida com resumos.

Resumos são aquelas explicações como a sequência de uma cena de ação em que o narrador para e explica: “Quando ele tinha 11 anos, quebrou o braço em uma viagem para Copacabana.”

É aceitável somente a ação que dá o contexto para o leitor entender.

Com a mesma lógica, não se permite adjetivos como: feliz, irritado, triste, alegre etc.

Exclua também as medições. Quilômetros, temperatura, idade altura etc. “Uma menina de 18 anos” – o que isso significa?

Poderia ser: “Uma menina que começava a entender a gravidade dos boletos…”.

Nada de texto recebido  

Na oficina, os clichês são chamados de “texto recebido”.

Nada de utilizar “deserto solitário”, “forte como um touro”, “chave de ouro”, “desde os primórdios”, “casa em ordem”, entre outros.

Não receba textos externos. Invente os seus.


Conclusão

Os conceitos ensinados por Tom Spanbauer na oficina Escrita Perigosa não são “leis da escrita.”

Você não é obrigado a aceitar ou utilizar.

Mas certamente ao empregar essas ideias seus textos ficarão muito mais intensos e impactantes.Sua narração e descrição ganhará vida, e seus leitores não esquecerão de suas histórias.

Todo esforço para escrever melhor é válido.

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Texto com informações extraídas dos sites Storytella e Creative Writing.

Categorias: Artigos

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