Narrador, Ponto de Vista e Foco Narrativo: Entenda de uma vez por todas o que são e como usar

Publicado por vilto em

Você já sentiu isso? Um frio na barriga por começar a escrever um conto ou romance e ter a impressão que sua história é fraca? Depois passou a pesquisar em livros de técnica literária ou na internet e descobriu que não sabia nada sobre narrador?

Você então começou a ler tudo sobre o assunto. Mesmo assim, não entendia quando qual narrador utilizar?

Então este conteúdo é para você que quer escrever grandes histórias! Afinal de contas, como você pode ver abaixo, dominar o uso do narrador é o que separa os grandes escritores dos iniciantes.

Você quer transpor esta barreira?

Então continue lendo este artigo para entender mais sobre os seguintes assuntos:

  • O que é foco narrativo ou ponto de vista?
  • Posso usar vários pontos de vista diferentes?
  • Autor, narrador e personagem-foco – Por que é importante diferenciar cada um?
  • Tipos de narradores, nível narrativo ou “participação do narrador”
  • Narrador personagem/protagonista
  • Narrador observador/testemunha
  • Narrador onisciente intrometido
  • Narrador onisciente neutro
  • Narrador do discurso indireto livre
  • Quando usar narrador em Primeira ou Terceira pessoa?

 

O que é foco narrativo ou ponto de vista?

“É praticamente impossível formular um romance ou um conto sem que os problemas pertinentes à focalização não venham à tona.”

A frase acima está no livro Breve estudo sobre o foco narrativo, de Maicon Tenfen. Talvez o melhor estudo sobre o assunto.

Você provavelmente deve ter encarado este problema. Mesmo que não saiba. E será que se saiu bem?

Foco narrativo e Ponto de vista são a mesma coisa.

Mas adotar este ou aquele ponto de vista de uma história pode torná-la diferente. Logo, o foco narrativo seria a escolha que o escritor faz pela visão de qual personagem será acompanhada a história.

Quebra de foco narrativo: um erro de escritores iniciantes

Um erro muito comum de escritores iniciantes é a quebra do foco narrativo (veja outros 10 erros comuns aqui).

O escritor começa contando a história pelo ponto vista do personagem A. Depois personagem B entra em cena. Então o narrador vai para a cabeça dele. E daqui a pouco, volta para o personagem A.

Não. Não faça isso.

Ao se preparar para contar uma história, escolha qual será seu personagem foco.

Posso usar vários pontos de vista diferentes?

Pode, mas procure deixar isso claro ao seu leitor. O que quero dizer com isso? Se vai trocar o ponto de vista, inicie um novo capítulo ou um novo segmento.

É como se a câmera trocasse de dono. Seu leitor saberá disso, mesmo que inconscientemente. E seu livro ganhará em qualidade. Aliás, trocar de ponto de vista pode ser uma ferramenta muito importante para criar suspense.

Antes de entrarmos no assunto do narrador, vamos fazer uma diferenciação importante.

 

Autor, narrador e personagem-foco – Como diferenciar cada um?

Entender as diferenças entre autor, narrador e personagem-foco é fundamental para utilizar bem os conceitos apresentados neste texto.

Escritores iniciantes costumam confundir o autor com o narrador. Ou seja, você não é o narrador da história. Mesmo que você faça autoficção e narre uma situação da sua vida. Você estará criando um narrador em primeira pessoa para poder fazer isso. Será uma construção.

O narrador nunca é o autor, embora ele possa ser o personagem.

Aliás, o escritor usará o narrador para contar/acompanhar a história do personagem-foco.

Temos que pensar sempre o narrador como uma criação ficcional. Tão importante ou mais do que os personagens.

Mas vamos nos aprofundar no assunto do narrador.

 

Tipos de narradores, nível narrativo ou “participação do narrador”

Nesta parte do artigo, vou apontar alguns narradores que você pode usar.

Mas antes: definir qual será a “participação” do narrador em sua história é muito importante.

Uma história é o que seu narrador conta. Tenha isso em mente.

Sempre digo que pode haver um enredo ruim bem contado. E pode se tornar uma grande história. Agora uma história boa com um narrador ruim nunca será boa literatura.

Podemos considerar que o maior desafio de todo escritor é criar grandes narradores.

Ou você acha que Dom Casmurro é um clássico por contar “mais uma” história de adultério? Jamais. É um clássico pela habilidade de Machado de criar narradores complexos e contraditórios (no bom sentido).

Pense nos narradores de José Saramago. Provavelmente o narrador é uma das maiores riquezas de sua literatura. E não à toa ele é o único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura.

Bom, vamos aos narradores mais importantes (e que podem ter outras nomenclaturas e se subdividirem conforme os autores):

 

Narrador personagem/protagonista (ou Autodiegético)

Em resumo, ele participa da história e a conta em primeira pessoa.

Pode ser a história de um vagabundo, de um megalomaníaco ou de uma pessoa que passou por grandes provações. Apenas para citar alguns exemplos.

Talvez seja o narrador mais comum de toda a ficção. Porque se trata de uma pessoa contando a outra(s) por situações que ela passou. Algo típico das narrativas autobiográficas.

Este narrador tem como sua principal arma a possibilidade de apresentar uma história que depois irá se contradizer. Ou em que o leitor perceba que os fatos não são os apresentados pelo narrador.

Esta técnica é comumente chamada de Narrador não-confiável. E é utilizada em livros como:

 

Narrador observador/testemunha (ou Homodiegético)

É o narrador fascinado por outro personagem, e que conta em primeira pessoa a história deste outro personagem.

Importante: sem ser o protagonista.

É o tipo de narrador ideal quando a história gira em torno de um personagem fascinante. Porque você pode torná-lo ainda mais interessante pelos olhos de outra pessoa. Ou deixar o leitor na dúvida se o tal personagem admirado é assim tão bom.

Exemplos importantes deste tipo de narrador são:

  • Watson narrando as aventuras de Sherlock Holmes;
  • Sal Paradise apresentando as viagens de Dean Moriarty em On the road;
  • Ismael tratando do duelo da Moby Dick e do Capitão Ahab.

 

Narrador onisciente intrometido (sempre Héterodiegético)

É como a ideia que temos do Deus bíblico.

O narrador onisciente sabe de tudo. Pensamentos, emoções e desejos dos personagens. E é héterodiegético por não ser parte da história. Mas muitas das vezes parece ser parte, pois ele opina, julga, disserta etc.

Foi o típico narrador utilizado nos séculos XVIII e XIX. E aqui poderia se abrir uma discussão sobre a função social da literatura e como ela influencia a evolução do narrador com o passar do tempo. 

Fato é que este tipo de narrador parece ultrapassado se usarmos hoje. Tolstói fazer isso em Guerra e Paz tudo bem, mas atualmente temos outras possibilidades.

A não ser que você tenha um narrador tão inventivo como o de Saramago, desista de usar este narrador. O próximo é um pouco melhor.

 

Narrador onisciente neutro (sempre Héterodiegético)

Neutralidade é sempre um ponto de vista, mas é o que propõe este narrador.

Usado na maioria dos best-sellers, é um narrador em terceira pessoa que conta a história sem fazer julgamentos, mas mostrando a consciência de um personagem.

O autor até pode optar por apresentar o ponto de vista de outros personagens. Para isso, no entanto, começará um novo capítulo. Tal como George R.R. Martin faz em As crônicas de gelo e fogo, ou Guerra dos tronos.

Pode até parecer que é fácil de usar, mas exige um bom domínio da técnica. Tende-se a cometer um erro bem comum e já citado neste artigo. A quebra do foco narrativo.

É relevante dizer ainda que este narrador é sempre héterodiegético. Ou seja, não faz parte da história.

 

Narrador do discurso indireto livre (sempre Héterodiegético)

Em minha opinião, este é o narrador mais complicado. Conseguir realizar um bom trabalho com este narrador eleva em muito o nível do seu texto.

Lembra da diferenciação entre autor, narrador e personagem? Aqui ela se torna muito importante.

O que o Narrador do Discurso Indireto Livre faz é fundir-se ao personagem-foco, mas continuar narrado em terceira pessoa. Ainda assim sendo héterodiegético, não sendo um personagem.

É como se ele narrasse tudo do ponto de vista do personagem-foco. Até mesmo usasse suas palavras e símiles, mas seguisse falando em terceira pessoa. O autor abre mão de seu “suposto estilo” para empregar o “estilo do personagem.”

Para facilitar o entendimento, vou apresentar um trecho de A festa do bode, de Mario Vargas Llosa, que utiliza este narrador:

“Logo que deixou Román para trás, uma figurinha patética chapinhando no lodo, seu mau humor desapareceu. Deu uma risadinha. De uma coisa ele estava certo: Pupo ia mover céus e terras, soltaria os cachorros para que o problema fosse reparado. Se aquilo acontecia com ele vivo, o que não iria acontecer quando não pudesse mais impedir pessoalmente que a incompetência, o descaso e a imbecilidade jogassem por terra o que tanto esforço custou?”

Neste trecho, algumas expressões são do Ditador Trujillo ou do narrador? Marquei em negrito para ficar claro a que me refiro. Podemos dizer que são de ambos, tanto do narrador como do personagem.

É um recurso refinado, mas que vale à pena executar.

 

Quando usar narrador em Primeira ou Terceira pessoa?

James Wood parece simplificar quando fala de narrador em seu livro Como funciona a ficção:

“A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas. Posso contar uma história na primeira pessoa ou na terceira pessoa, e talvez na segunda pessoa do singular e na primeira do plural, mesmo sendo raríssimos os exemplos de casos que deram certo. E é só. Qualquer outra coisa não vai parecer muito uma narração, e pode estar mais perto da poesia ou do poema em prosa.”

Chega a ser quase irônico. “E é só.”? As possibilidades de combinações multiplicadas pelo estilo de cada escritor beiram o infinito. E olha que o livro citado é praticamente uma bíblia para mim.

Vamos ser mais práticos? Como escolher quando usar o narrador em primeira ou terceira pessoa? Tudo depende do efeito que você quer causar.

Vou fazer algumas recomendações baseada em uma lista do Writer’s Digest.

  • Vai usar regionalismo na linguagem? Escolha a primeira pessoa.
  • Seu personagem-foco fará longas ruminações ou discursos? Escolha a primeira pessoa.
  • O leitor deve se identificar profundamente com seu personagem-foco? Escolha a primeira pessoa ou a terceira com o Narrador do Discurso Indireto Livre.
  • Apresentar seu personagem de fora, como em um filme? Escolha uma terceira pessoa próxima ou distante.
  • Intercalar suas opiniões com a do personagem? Utilize o Narrador Onisciente Intrometido.
  • Prefere baixa identificação entre o leitor e o personagem? Talvez porque você fará seu personagem um idiota? Escolha a terceira pessoa bem distante.

 

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