Quando falamos em gótico, muita gente pensa primeiro numa imagem. Um castelo antigo. Um corredor escuro. Uma pessoa vestida de preto. Um vampiro pálido. Uma mansão coberta por névoa. Tudo isso faz parte do imaginário, claro. O problema começa quando tratamos o gótico apenas como aparência.
Porque ele é mais do que uma estética visual.
Este artigo nasce de uma conversa que tive no YouTube com Andrio Santos, escritor, tradutor, pesquisador e autor de Apetites Vorazes, romance gótico de vampiros queer publicado pela Editora Flyve. Andrio trabalhou com ficção gótica e teoria queer na academia, traduziu O Grande Deus Pan e levou seus estudos para grupos e eventos no Brasil e no exterior.
Eu queria conversar com ele justamente sobre isso: como usar elementos góticos em diferentes gêneros sem transformar o livro numa cópia das obras clássicas.
Afinal, não basta colocar um vampiro numa história para ela se tornar gótica.
O gótico aparece quando algo não cabe na ordem
Uma das ideias mais interessantes da conversa foi pensar o gótico como uma estética da negatividade. Não no sentido de algo ruim, mas no sentido de olhar para aquilo que a sociedade costuma empurrar para a margem.
Medo. Desejo. Excesso. Monstruosidade. Corpo. Repressão. Transgressão.
Andrio comentou que, quando pensamos no gótico, três elementos costumam aparecer: transgressão, excesso e monstruosidade. Nem toda obra gótica vai trabalhar esses três elementos da mesma forma, porque o gótico mudou muito do século XVIII para cá. O gótico do século XIX já não era igual ao de seu início, e o que chega ao cinema, aos quadrinhos, aos jogos e à cultura pop vem ainda mais diluído. Ou, usando uma imagem que gostei bastante, o gótico contamina outras narrativas.
Ele entra no terror, na fantasia, no romance, no suspense, no cyberpunk, no drama familiar. Às vezes, não transforma a obra inteira em gótica, mas deixa ali seus vestígios: uma casa que guarda segredos, um personagem atormentado, um desejo proibido, uma família em decomposição, um passado que não aceita ficar enterrado.
O gótico começa quando alguma fronteira é atravessada. E essa travessia cobra um preço.
Por que o gótico volta em momentos de crise?
Também falamos sobre a sensação de que, nos últimos anos, houve um retorno maior do sombrio, do horror e de certos elementos góticos na cultura pop. Talvez isso tenha se intensificado depois da pandemia, mas vem de antes.
Andrio trouxe uma chave importante: o gótico tende a ganhar força em momentos de crise.
No final do século XIX, por exemplo, havia a crise do imperialismo britânico, a epidemia de sífilis, uma forte repressão sexual e várias ansiedades sociais circulando. Não por acaso, esse período produziu narrativas com fantasmas, vampiros, duplos, corpos corrompidos e figuras que encarnavam aquilo que a sociedade tentava reprimir.
Pense em O Retrato de Dorian Gray. Pense em O Médico e o Monstro. Mesmo quando discutimos se uma obra é ou não gótica em sentido estrito, esses exemplos mostram algo importante: o duplo, o outro reprimido, a imagem escondida, a face que não pode aparecer em público.
Hoje, vivemos outro tipo de crise. Crise de informação, fake news, inteligência artificial, guerras, genocídios, pânicos morais envolvendo gênero e sexualidade, medo do futuro e uma sensação constante de instabilidade.
Nesse contexto, não me surpreende que o gótico volte a aparecer. Ele sempre soube lidar com o que assombra uma época.
O monstro contemporâneo é instável
Um exemplo que apareceu na conversa foi Nosferatu, especialmente a versão mais recente de Robert Eggers. Andrio comentou algo que achei muito bom: o Nosferatu contemporâneo é mercurial.
Ele é desejo, carne, sombra, fantasma, dominação e submissão ao mesmo tempo. Nada nele parece fixo. Isso conversa muito com o nosso tempo.
O monstro contemporâneo não assusta apenas porque vem de fora. Ele assusta porque muda de forma, escapa da definição, mistura categorias. Não sabemos se é corpo ou fantasma, desejo ou ameaça, poder ou fragilidade. E talvez essa instabilidade seja uma das marcas do nosso medo atual.
O gótico funciona bem quando o monstro revela uma ansiedade que já estava ali. O vampiro pode representar desejo, doença, aristocracia decadente, colonialismo, medo da sexualidade, medo da morte ou fascínio pela transgressão.
O monstro muda porque os medos mudam.
Nem todo vampiro torna uma história gótica
Uma pergunta importante: uma obra com vampiros é automaticamente gótica?
Não.
Isso vale para vampiros, fantasmas, mansões, cemitérios, castelos e todo o repertório sombrio. Uma história pode usar elementos nascidos no gótico sem ser gótica. O vampiro pode aparecer numa fantasia, numa comédia, numa romantasia, num romance policial ou numa história de ação.
O que torna uma obra gótica não é apenas a criatura. É a estrutura de negatividade que organiza seus elementos.
Andrio explicou que o gótico pode incluir retorno do passado, personagens atormentados, fantasmas, tabus de gênero, sexualidade, excesso, transgressão e monstruosidade. Só que esses elementos, isoladamente, não bastam. Eles precisam estar organizados por uma lógica que produza medo, apreensão, tensão moral ou desestabilização.
Foi nesse ponto que falamos de Crepúsculo. Não como ataque à obra, mas como fenômeno cultural.
O vampiro de Crepúsculo é domesticado. Ele carrega a imagem do amante eterno, do desejo intenso, da beleza perigosa, mas também aparece dentro de uma lógica de contenção, castidade e controle. Isso diz muito sobre o momento cultural em que a obra explodiu.
Também lembramos que essa domesticação do vampiro não começa ali. Diários do Vampiro, por exemplo, já trabalhava com figuras vampíricas atravessadas por romance, desejo e contenção antes da explosão de Crepúsculo.
Pode haver vampiro sem subversão, estética sombria sem gótico ou gótico sem castelo.
O horror muitas vezes tenta restaurar a ordem
Uma coisa curiosa sobre o horror é que, muitas vezes, ele funciona como um conto cautelar. Ele mostra uma transgressão, pune quem sai da linha e tenta restaurar a ordem no final.
Nos slashers, por exemplo, existe aquela velha lógica de que quem faz sexo morre primeiro. A narrativa parece dizer: não ultrapasse este limite.
O gótico também pode funcionar assim, mas não apenas assim.
Às vezes, a história tenta matar o monstro e devolver o mundo ao normal. O problema é que nem sempre o mundo volta ao normal. Uma pergunta permanece. Um desejo foi revelado. Um corpo mudou. Uma personagem viu algo que não pode mais desver.
Andrio citou uma adaptação de Drácula em que Lucy é seduzida pelo vampiro. No final, há uma tentativa de restaurar a ordem, mas algo fica quebrado. O marido, representante de uma vida doméstica sem graça e previsível, talvez vença no enredo. Só que a personagem não retorna igual. O desejo dela foi deslocado.
O monstro pode morrer. A transgressão, não.
Carmilla e a pergunta que não fecha
Poucas obras ajudam tanto a entender isso quanto Carmilla. Na novela de Sheridan Le Fanu, Carmilla chega à casa de Laura e estabelece com ela uma relação de sedução, ambiguidade e desejo. Depois, os homens entram em cena para explicar o que aconteceu, nomear o horror e tentar reorganizar a experiência de Laura, mas a história não fecha completamente.
Laura narra o que viveu depois de ter recebido documentos, explicações e interpretações de homens que disseram a ela o que aquilo significava. O que ela entendeu como desejo passa a ser recontextualizado como horror.
Só que fica a pergunta: e se a história não tivesse sido interrompida?
Essa pergunta é o que mantém Carmilla viva. Há uma narrativa oficial tentando explicar o monstro, mas há também uma experiência íntima que escapa. Um desejo que não cabe na explicação. Uma dúvida sobre o que Laura sentiu, sobre o que Carmilla era, sobre o que poderia ter acontecido.
A força do gótico está muito aí. Não responder tudo, deixar a ferida aberta.
O gótico também pode discutir classe
Outro ponto importante é que o gótico não serve apenas para falar de desejo e sexualidade. Ele também pode discutir classe, poder, herança, propriedade, família e violência institucional.
Andrio lembrou O Castelo de Otranto, frequentemente apontado como o primeiro romance gótico. O conflito central envolve manutenção de poder, linhagem, casamento, tabu e violência. Um homem deseja se livrar da esposa para casar com a prometida do próprio filho morto, tentando preservar sua posição.
A transgressão não aparece como algo abstrato. Ela nasce de uma estrutura social.
O mesmo vale para O Morro dos Ventos Uivantes. Muita gente lembra do romance como uma história de amor intensa, mas há ali crueldade, vingança, ressentimento, racismo, classismo e punição geracional. Heathcliff não precisa ser um monstro sobrenatural para ocupar uma função monstruosa.
Às vezes, o monstro é humano. E isso é mais assustador.
Como usar o gótico fora de uma narrativa gótica
Uma das perguntas que mais me interessava era esta: posso usar elementos góticos fora de uma obra propriamente gótica?
Sim.
Você pode estar escrevendo fantasia e usar o gótico para discutir classe. Pode estar escrevendo suspense e usar o retorno do passado como força estrutural. Pode estar escrevendo ficção científica e usar cidades labirínticas, corpos modificados, memórias instáveis e desejos reprimidos para criar uma atmosfera gótica.
Até o cyberpunk pode se aproximar disso.
Andrio comentou Carbono Alterado, que não é necessariamente uma obra cybergótica, mas usa elementos góticos na construção de espaço, sobretudo nas cidades labirínticas. Também citou Cyberpunk 2077: Nenhum acaso, que começa com uma releitura de uma cena de Dickens, em Bleak House, e mostra como a construção de espaço pode carregar uma herança sombria.
O ponto é: o gótico pode ser uma ferramenta. Você não precisa reproduzir Drácula.
Pode perguntar: que passado assombra este mundo? Que desejo é proibido aqui? Que corpo não cabe nessa sociedade? Que família esconde uma violência? Que arquitetura oprime os personagens? Que monstro revela a verdade que todos fingem não ver?
Essas perguntas já aproximam sua narrativa do gótico.
Apetites Vorazes e os vampiros no Brasil
A conversa também girou em torno de Apetites Vorazes, romance de Andrio que tive o privilégio de ler como beta e depois editar. Digo sem falsa modéstia: tenho muito orgulho de ter meu nome na ficha técnica desse livro como editor. É um dos meus livros preferidos da vida.
O romance nasce de uma pergunta muito forte: como escrever vampiros no Brasil?
Não vampiros apenas transportados para cá, como se usassem nosso cenário de fundo, mas vampiros falando com nossas vozes, nossos espaços, nossas tensões.
Andrio pensou primeiro em ambientar a história em Porto Alegre, mas sentiu que a cidade era cosmopolita demais para o tipo de tensão que queria construir. Então criou Santa Cecília, uma cidade ficcional do interior do Rio Grande do Sul, inspirada em cidades universitárias como Santa Maria, Pelotas e Passo Fundo.
Essas cidades têm uma cultura jovem, noturna, universitária, progressista, mas também convivem com um passado colonial, famílias tradicionais, poder local e estruturas conservadoras. É um choque perfeito para uma narrativa de vampiros.
A cidade não é apenas cenário. É conflito.
Carnaval, vampiros e o Mausoléu
Uma das escolhas mais interessantes de Apetites Vorazes é começar a história no carnaval. O carnaval carrega um imaginário brasileiro muito forte, ligado à festa, ao excesso, à suspensão temporária da ordem e à mistura de corpos.
Ao mesmo tempo, a história começa no Mausoléu, um bar de vampiros instalado num sobrado colonial alterado. Paredes derrubadas, neon, pichações, luzes e uma estrutura antiga modificada por corpos que não aceitam simplesmente herdar o espaço como ele era. Isso é gótico de um jeito muito brasileiro.
O passado colonial permanece em volta, mas foi contaminado. Os vampiros estão ali, festejando, ocupando, mexendo na arquitetura e ressignificando aquele centro histórico.
Andrio contou que queria começar num momento marcadamente brasileiro para negociar essas vozes sem cair no pastiche. Essa preocupação é importante. Quando tentamos “abrasileirar” uma criatura clássica, o risco é virar caricatura. Apetites Vorazes evita isso porque não usa o Brasil como enfeite. O Brasil entra na estrutura da narrativa.
Desejo como motor da história
Andrio definiu o romance como uma narrativa guiada por personagens. Não há um chamado da aventura, um grande problema externo ou uma missão épica. O que move a história é aquilo que os personagens querem.
Nix é uma vampira, filha de Orfeu, dono do Mausoléu. Ela está brigada com ele, envolvida com outra vampira e acredita que alguém fez algo com uma pessoa de quem ela gostava quando ainda era humana. Ela quer vingança, mas ainda não sabe exatamente contra quem direcionar essa energia.
Duda e Ícaro entram por outro caminho. Humanos, amigos, envolvidos em seus próprios dilemas, eles acabam se aproximando desse mundo.
O ponto central é que todos os personagens principais são queer, e isso não é detalhe decorativo. O livro seria outro se esses personagens não fossem queer. Sexualidade, gênero, desejo e dissidência têm peso narrativo. Esse é o centro do gótico queer. Não basta que uma obra tenha personagens LGBTQIA+. É preciso que esses desejos e identidades modifiquem a estrutura da história, os conflitos, as escolhas e as consequências.
Andrio também citou outras referências contemporâneas importantes para pensar isso, como A Menina Submersa, de Caitlín R. Kiernan, e Lost Souls, de Poppy Z. Brite. São obras em que identidade, desejo e dissidência não aparecem apenas como camada estética. Elas interferem no centro da narrativa.
Reescrever é perder o medo de destruir
Uma parte da conversa que considero essencial para escritores é o processo de reescrita de Apetites Vorazes. Andrio contou que a primeira versão tinha cerca de 180 páginas no Word. Depois de meses parado, releituras e apontamentos, sobraram apenas 40 páginas que ainda estão no romance final.
O resto precisou ser refeito.
Uma personagem não encaixava. Saiu da história. Como ela era criadora de Ícaro, ele deixou de ser vampiro e passou a ser humano. Isso obrigou Andrio a repensar todo o personagem, suas relações e sua função narrativa. E o livro ficou melhor. Essa é uma lição dura, mas necessária: o primeiro manuscrito não está pronto.
Se você terminou e acha que está perfeito, provavelmente ainda não se afastou o suficiente para enxergar os problemas. Às vezes, é preciso cortar uma personagem inteira. Mudar a natureza de outra. Reorganizar a estrutura. Jogar fora uma solução que parecia boa porque ela não sustenta o livro. Não seja preciosista. Se não está funcionando, corte e faça de novo.
Conclusão: o gótico é uma pergunta sobre o que retorna
Usar o gótico na escrita não significa vestir a história de preto. Também não significa copiar castelos, vampiros vitorianos ou mansões assombradas.
O gótico é uma forma de lidar com aquilo que retorna.
O passado que não desapareceu. O desejo que não coube na norma. O corpo que incomoda. A casa que guarda violência. A cidade que esconde sua história. O monstro que revela uma verdade. A pergunta que não se resolve no final.
Você pode usar elementos góticos na fantasia, no suspense, na ficção científica, no terror, no romance ou até num drama realista. O importante é entender que o gótico não é só atmosfera. Ele precisa produzir tensão, negatividade, conflito e desestabilização.
Se a sua história termina exatamente como começou, talvez o monstro não tenha feito o bastante. O bom gótico deixa marcas. Ele contamina a narrativa.
E talvez seja por isso que continue voltando em tempos de crise. Porque algumas épocas precisam olhar para seus próprios fantasmas, mesmo quando fingem que não acreditam neles.
Se você quer estudar mais sobre gótico, literatura fantástica, vampiros, desejo, monstros e construção narrativa, fica o convite para conhecer o Laboratório de Escrita de Literatura Fantástica. É um espaço de aula, prática e troca para quem quer sair da teoria e desenvolver histórias com mais consciência técnica.
Me conte!
o que você achou deste conteúdo?