Sempre que alguém fala em fantasia épica, algumas imagens aparecem quase automaticamente: castelos, reis, cavaleiros, espadas encantadas, magos sábios e uma sociedade que lembra vagamente a Europa medieval.
Não tenho problema nenhum com essas coisas. Gosto muito delas.
O problema começa quando acreditamos que fantasia épica precisa ser assim.
Foi sobre isso que conversei em live no Youtube com M. P. Neves, autor de Sangue da Terra, sobre mundos fantásticos fora do modelo europeu. M. P. também é autor de Um Contrato de Luz e Espelhos, Música Roubada e da Trilogia A Ruína de Noltora.
A questão não era abandonar Tolkien ou fingir que essas obras deixaram de ter importância. Era perceber que talvez estejamos reproduzindo certas escolhas sem sequer perguntar por quê.
E essa pergunta é um bom ponto de partida para pensar em fantasia decolonial.
Por que seu mundo fantástico tem um rei?
M. P. trouxe uma questão que parece simples: se estamos inventando um mundo inteiro, por que ele precisa funcionar como uma imitação de uma sociedade medieval europeia?
Por que existe um rei? Por que existem camponeses? Por que o lugar onde todo mundo se encontra é uma taverna? Por que a magia precisa estar nas mãos de um mago sábio?
Às vezes a resposta é apenas: porque todos os livros que li eram assim.
Isso não torna a escolha errada. Só significa que talvez ela não tenha sido exatamente uma escolha.
M. P. gosta de fantasia medieval e de O Senhor dos Anéis. Eu também. Ele contou, inclusive, que pensa no Império Romano todos os dias e estava lendo SPQR, de Mary Beard.
Entre as referências que ajudaram a sedimentar esse imaginário de fantasia, também temos obras como As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, que retoma o ciclo arturiano e ajudou muita gente a entrar no gênero.
Então não estamos falando de jogar essas referências fora, mas de ampliar o repertório.
A fantasia épica não é definida por castelos e cavaleiros. Ela pode trabalhar grandes conflitos, forças políticas, povos, magia, guerras, pertencimento e transformação sem reproduzir sempre a mesma organização social.
Fantasia decolonial não é trocar a skin
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Não adianta pegar a estrutura de O Senhor dos Anéis, trocar os nomes das divindades por Tupã e Jaci e considerar que agora temos uma fantasia brasileira.
A estrutura continua igual.
Pensar uma fantasia decolonial exige perguntar como outras culturas entendem família, propriedade, liderança, espiritualidade, território, comunidade, trabalho, amor e poder.
O Brasil oferece material quase infinito para isso.
M. P. nasceu na Bahia e hoje vive no Sul. Ele comentou que conta histórias baianas para amigos daqui e eles ficam impressionados. Ao mesmo tempo, escuta histórias do Sul que nunca havia conhecido.
E nenhum de nós conhece o Brasil inteiro.
Existem culturas indígenas, africanas, europeias, asiáticas e inúmeros sincretismos formados aqui. Temos religiões, festas, causos, formas de organização social e acontecimentos históricos que podem alimentar mundos fantásticos sem precisar recorrer novamente ao mesmo castelo.
Eu também precisei mudar minhas referências
Passei por esse processo na minha escrita sem sequer conhecer ainda o termo decolonial.
Gosto de A Guerra dos Tronos, O Senhor dos Anéis e Conan. Foram leituras importantes para minha formação como escritor de fantasia. Só que, por volta de 2019, comecei a me perguntar: o que mais existe?
Uma das obras que abriu bastante minha cabeça foi Duna.
Eu sei que Duna é classificado como ficção científica, mas sempre enxerguei muita fantasia ali. O que me chamou atenção foi encontrar conflitos ligados a recursos naturais, religião, povos, política e ambiente funcionando dentro de uma narrativa grandiosa.
Depois comecei a encontrar autores que trabalhavam com outras referências culturais. Obras como A Guerra da Papoula, de R. F. Kuang, mostravam que a fantasia épica podia partir de imaginários muito diferentes daqueles que dominaram o gênero durante décadas.
Pensei também em samurais, porque sempre gostei muito. Amo Lobo Solitário, de Kazuo Koike e Goseki Kojima, e os filmes de Akira Kurosawa. Só que os próprios japoneses já produzem essas histórias há muito tempo.
Então comecei a olhar para culturas africanas.
Passei pelo Egito, fui para os núbios e, como aparentemente não consigo fugir do Império Romano, cheguei a Cartago. Estudar Aníbal e seus movimentos militares acabou influenciando inclusive Nascida para o Trono.
Em determinado momento percebi outra coisa: eu não estava apenas misturando referências africanas. Estava escrevendo como brasileiro.
Da taverna ao festal
Uma pequena mudança em Nascida para o Trono representa bem esse processo.
Fantasia medieval tem muita taverna. Normalmente é um espaço fechado, com lareira, cerveja, madeira e aquela atmosfera que já conhecemos.
Eu queria um lugar para as pessoas beberem, festejarem e se encontrarem, mas aquilo não combinava com o mundo que estava criando.
Comecei a imaginar algo mais próximo de um boteco aberto. Uma pessoa monta uma tenda, começa a servir bebida, outras tendas aparecem e aquilo cresce até virar um espaço de festa.
Daí nasceu o festal e, consequentemente, o festaleiro.
Eu não sentei para escrever pensando: agora vou decolonizar a taverna. Só percebi depois que estava buscando outra lógica para uma função narrativa conhecida. É esse tipo de pergunta que pode transformar um mundo fantástico.
Brasilidade também está na maneira de pensar
Falar em brasilidade virou quase um slogan no mercado literário. Às vezes parece suficiente colocar uma camisa do Flamengo em alguém e considerar o trabalho concluído.
Isso é uma camada possível, claro.
Só que brasilidade também está nos conflitos sociais, nos costumes, na voz e na forma como nossos personagens se relacionam.
Um exemplo de que gosto muito é O Auto da Maga Josefa, de Paola Siviero. A história surgiu de uma provocação sobre a possibilidade de escrever fantasia com um caçador de criaturas chamado Toninho e uma maga chamada Josefa.
Ela foi lá e fez funcionar.
M. P. também lembrou de Romance d’A Pedra do Reino, de Ariano Suassuna, que mistura misticismo, história, sertão e uma quantidade enorme de referências culturais brasileiras numa narrativa épica. Suassuna, por sua vez, dialogava com uma longa tradição picaresca e com obras como Dom Quixote, de Miguel de Cervantes.
Não precisamos procurar o fantástico apenas fora daqui.
Sangue da Terra e outras formas de imaginar um épico
Em Sangue da Terra, M. P. fez esse movimento conscientemente. Há inspirações latino-americanas, africanas e indígenas, uma fauna sem animais europeus e uma estética dieselpunk com máquinas, fumaça e tecnologia.
Mas uma das escolhas decoloniais apareceu quase sem planejamento: os três protagonistas formam um relacionamento não monogâmico.
Isso mostra que decolonizar uma fantasia não significa apenas mudar arquitetura, roupas ou mitologia. Podemos questionar também relações afetivas, estruturas familiares e ideias que tratamos como universais.
Os próprios personagens lidam com ancestralidade, pertencimento e colonização de maneiras diferentes. Um trabalha para os colonizadores. Outro possui privilégios por ocupar um lugar entre dois povos. Uma terceira personagem tem sua identidade profundamente ligada à própria ancestralidade.
É aí que o tema deixa de decorar o mundo e entra no conflito.
A fantasia pode fazer muito mais
Talvez pensar em fantasia decolonial comece com uma pergunta bastante simples:
Por que estou fazendo assim?
Se a resposta for boa, continue. Se for apenas “porque fantasia sempre foi assim”, talvez exista uma oportunidade muito mais interessante esperando do outro lado.
Não precisamos abandonar castelos, dragões ou espadas. Só precisamos lembrar que eles nunca foram os limites da fantasia.
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