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5 Perguntas que um escritor se faz ao jogar RPG

Publicado por Vilto Reis em

Desde que Dungeons & Dragons foi lançado em 1974, jogar RPG é um hobbie (para muitos, uma religião) em franco crescimento no Brasil e no mundo.

Talvez a mais importante prova recente de que o jogo tem muitos adeptos em nosso país foi o maior financiamento coletivo de nossa história, via Catarse, do RPG Tormenta 20.

Mas o que isso tem a ver com escrita de ficção?

Quem nunca leu ou ouviu um escritor de Fantasia ou Ficção Científica dizendo em entrevista que  costuma jogar RPG?

É muito comum.

Curioso que sou, alguns meses atrás, decidi procurar uma mesa e começar a jogar RPG.

Faz pouco tempo, admito. Mas após participar de algumas mesas, consegui responder a uma pergunta muito importante: jogar RPG ajuda a escrever ficção?

A resposta é: sim. 

Principalmente porque enquanto jogava, comecei a me fazer muitas perguntas que ajudam na escrita.

Resolvi trazer elas para cá, assim podemos discutir juntos e somar conhecimentos.

Antes, para quem não conhece, deixe-me explicar uma coisa.

O que é RPG?

Foto por Ian Gonzalez

A sigla RPG significa role-playing game

Costuma-se traduzir como “jogo de interpretação de papéis”, mas em minha opinião não há uma tradução literal que faça jus ao que é o jogo.

Algo mais aproximado da experiência seria: “jogo de contação de história com interpretação de papéis a partir de escolhas e aleatoriedades.” 

Mais aproximado, porém nada prático, admito.

Basicamente, quando você vai “jogar RPG” significa que você vai encontrar um grupo, presencial ou online, no qual irá ou mestrar a história ou interpretar um personagem.

O mestre é que apresenta a premissa da história, gera novos desafios, interpreta personagens que não são os jogadores, entre outras coisas.

Já ao interpretar um personagem, você irá interagir com o grupo por meio de suas habilidades determinadas a partir de uma ficha.

Tudo isso com base em um sistema. 

Aliás, existem RPGs para todos os gostos. Os mais conhecidos são os medievais/fantásticos — como D&D, Pathfinder ou Tormenta —, mas há inúmeros outros. Por exemplo:

  • Super-heróis: Mutantes e malfeitores;
  • Ficção científica: Starfinder, Traveler, Cyberpunk 2020;
  • Terror: Chamado do Cthulhu, Vampiro: A Máscara,  Lobisomem: O Apocalipse;
  • Faroeste: Deadlands;
  • Novela mexicana: Passion de las Passiones;
  • Folclore brasileiro: A bandeira do elefante e da arara.

A comunidade em torno do RPG acaba criando muito conteúdo. E uma mídia que tem me ajudado muito a, cada vez mais, imergir neste mundo é o podcast. Particularmente o Café com dungeon e o Dragão Brasil.

Após esta breve explicação, vamos ao principal que aprendi ao jogar RPG: fazer perguntas.

5 Perguntas que um escritor se faz ao jogar RPG

Ao jogar RPG, você pode utilizar personagens como estes.
Arte de Tatiana Hordiienko

É comum em situações de jogo você fazer muitas perguntas, afinal é tudo imaginativo e você precisa das informações para formar a cena.

E, como escritor, isso também é fundamental. 

Portanto, vamos ver que tipo de perguntas os escritores podem se fazer ao jogar RPG e que deve ajudar em sua escrita.

1) Por que meus personagens não engajam o leitor?

Em quase todos os RPGs, os personagens evoluem. Eles começam no nível 1 e vão ganhando experiência e evoluindo aos níveis seguintes.

Quanto mais tempo o jogador joga com determinado personagem, mais se envolve com ele.

(Há quem chore quando seu personagem morre).

Na literatura, o personagem também devem enfrentar desafios — seja matar um dragão ou conseguir independência financeira e sair de casa — e evoluir diante das situações.

Para que haja engajamento do leitor, precisa existir identificação ou projeção com o personagem.

Identificação se o leitor já viveu algo semelhante, ou projeção se o leitor gostaria de ser como aquele personagem.

Por isso que é fundamental criar protagonistas profundos para ter uma boa história.

2) Como o objetivo pessoal de um personagem se cruza com a trama maior?

Ao jogar RPG, o mestre apresentará uma proposta de história. 

Por sua vez, os jogadores criarão personagens que tenham históricos e objetivos pessoais.

Só que muitas das vezes, as duas coisas não batem.

Por exemplo, personagem X é filho de um pirata e deseja seguir a carreira do pai, tendo seu próprio navio. No entanto, a história se passa no deserto (e não há navios voadores neste mundo). 

Dificilmente, os objetivos vão se cruzar, certo?

Mesmo assim, isso não seria motivo para deixar de ter uma mesa de RPG.

E na ficção?

É fácil quando o personagem procura sempre fazer o bem (o que é bem chato, vamos concordar) e cai no colo dele a missão de salvar o mundo, certo?

Mas e se você não quiser algo assim?

A primeira coisa a se fazer é ter em mente que todos os personagens, absolutamente todos, querem alguma coisa. As pessoas são assim.

Então uma forma de “costurar” objetivos pessoais e desafios maiores é fazer com que uma coisa dependa da outra. 

Digamos que personagem X queira o navio, mas ele não quer qualquer um. Ele quer o “Pesadelo”, um navio que pertenceu a seu pai. Para isso, ele terá que encontrar uma pessoa que foi a última que viu a embarcação. Coincidentemente (ou não) esta pessoa vive no mesmo deserto para onde o grupo precisa ir.

Pronto, objetivos se amarram.

É o que um bom mestre faria, acredito.

3) Quais as consequências para as decisões dos personagens?

Toda a decisão tem uma consequência.

Pelo menos, ao se jogar RPG. Talvez você salve uma menina de ser atropelada por uma carroça, ela agradeça e dê a você uma flor, a qual você joga fora apenas para mais tarde descobrir que precisaria daquele item para se curar de uma doença.

Ou seja, para cada decisão, uma consequência.

Existem muitos gêneros diferentes de histórias em literatura. 

No entanto, uma história bem amarrada  pode usar a mesma lógica do RPG: para cada decisão, uma consequência.

Fica a lição.

4) Encontros aleatórios podem acontecer em um trama literária?

Há alguns sistemas de RPG que contam com “encontros aleatórios”. 

Ou seja, você está em meio a uma viagem, por exemplo, e o mestre rola dados com base em uma tabela. Se determinado número cair, você vai ter um encontro aleatório que, normalmente, é algum combate.

Para determinar se isso pode acontecer em uma trama literária, vamos pensar se é verossímil.

É claro que não estou falando de você encontrar um Troll enquanto vai ao trabalho, mas quantas vezes você foi a um lugar e deu de cara com um conhecido que não via há anos?

Isso não poderia ser um encontro aleatório? Acredito que sim. 

A grande questão é você não esquecer que o encontro precisa ter consequências para seus personagens.

Isso é fundamental

5) Qual a diferença entre a narração do mestre e o narrador em literatura?

Acredite, há diferenças.

O mestre de RPG conta o que os personagens vêm, coletiva ou individualmente.

Em literatura, o narrador revela o que um determinado personagem vê, ouve, sente, seus pensamentos e ruminações interiores. A isso, chamamos de focalização.

Embora, em alguns momentos, o narrador de literatura também possa fazer uma descrição mais geral, mais ampla, utilizando uma focalização externa, como faria um mestre de RPG.

Uma coisa não é melhor que a outra. Cada mídia, com suas características.

Mas não vá escrever um livro de ficção igual um mestre narrando um RPG. São coisas diferentes e você perde o melhor da literatura.

***

Considerações finais sobre o que sinto ao jogar RPG

Em primeiro lugar, espero que essas perguntas possam ajudar você a melhorar ainda mais sua escrita de ficção.

Em segundo, torço para que mais gente possa jogar RPG. 

Afinal, é uma atividade divertida, que promove interação e cooperação.

Por fim, que outras perguntas você já se fez como escritor ao jogar RPG? 

Continue essa discussão nos comentários!

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Categorias: Artigos

8 comentários

Elias · 22 de maio de 2020 às 9:27 pm

Daria para criar um livro usando o RPG? Tabelas, monstros e até o personagem da trama ser um personagem? Sou um grande amante de literatura e rpg sempre fiquei se perguntando se daria para juntar os dois

    Moises · 23 de maio de 2020 às 12:13 am

    Cara, dá sim! Na verdade existem muitos livros que nasceram de mesas de rpg ou foram inspirados em histórias dessas mesas… já vi de D&D e Tormenta (incluindo quadrinhos tb) e até o Ozob Do Alazaghal (Jovem Nerd), porém ainda não tive o prazer de ler nenhum deles, só li alguns baseados em jogos de video-games mesmo… Porém a série que escrevo é baseada em um jogo que criei junto aos meus primos (na época não conhecíamos os RPGs de mesa, porém acabamos criando algo semelhante instintivamente… o diferencial bem interessante é que cada arco da história era narrado por um de nós e continuava o arco anterior, o que fazia todo mundo ser mestre e jogador, e criava roteiros bem surpreendentes! Convido vc a conher, se o Vilto me der licença nesse espacinho, chama-se N.I.N.J.A.S.)

      Vilto Reis · 23 de maio de 2020 às 5:14 pm

      Eu particularmente gosto muito dos romances e quadrinhos de Tormenta. Já tive oportunidade de ler alguns e penso que os autores sabem muito bem somar as melhores características de uma mídia na outra.

      Valeu por comentar, Moises.

    Vilto Reis · 23 de maio de 2020 às 5:12 pm

    Com certeza, Elias. Só teria que cuidar para não usar criaturas exclusivas de criação de uma empresa em suas obras. Mas a maioria, como elfos, orcs e anões, são de domínio público. Então poderia usar sem problemas.

Natan · 22 de maio de 2020 às 11:15 pm

Muito bom o paralelo! Sempre imagino o que vivenciamos na mesa de RPG como uma fração de uma história maior e, por mais de uma vez, já pensei em criar contos para registrar. Acho que o maior ganho do RPG para qualquer um, inclusive para escritores, é o exercício do improviso. Já li que escritores muitas vezes veem seus personagens fazendo escolhas e seguindo para caminhos que vão além do primeiro impulso do escritor, tornando o processo de escrita algo bem orgânico e cheio dessas improvisações.
Por fim, e curto muito a experiência de ter artistas e escritores nas minhas mesas quando eu mestro. Eles sempre trazem muitas coisas de suas áreas e eu fico muito feliz com resultado final!

Parabéns pela reflexão, abraços!

    Vilto Reis · 23 de maio de 2020 às 5:12 pm

    Ótimo apontamento, Natan. Sem dúvida, só tem a somar.
    Valeu por comentar.

W. A. Miranda · 7 de agosto de 2020 às 3:30 am

Jogo a 17 anos, é um hobbie bem divertido. Tormenta foi um dos primeiros que joguei, e até hoje gosto e admiro. Gostei do seu artigo. Recomendo que você jogue L5R quando tiver oportunidade. Vai gostar muito.

Minha dúvida é sobre os sotaque.
Se um autor está escrevendo um romance de fantasia medieval e um personagem tem um sotaque muito singular, isso pode atrapalhar a história ou ajudar?
Por exemplo, se no universo todos os anões tem sotaque MINEIRO, porque eles falam assim neste universo, isso atrapalha a aceitação da obra?
Ficaria melhor criar um sotaque específico para os anões, ou deixá-los como mineiros estraga as coisas?

    Vilto Reis · 7 de agosto de 2020 às 6:06 pm

    Valeu pela recomendação.
    Cara, tem muito leitor aqui no Brasil (fala daqui, pois só conheço o nosso cenário) que tem preconceito. É um pouco arriscado colocar um sotaque regional, mas se você não se importar com isso, vá em frente. Do contrário, seria melhor criar um sotaque específico para o livro.

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