Cena e Sumário — Como utilizar a narração para não dar sono em seu leitor

Publicado por Vilto Reis em

Cena e sumário na foto de Patrick Tomasso

Cena e sumário podem ser considerados conceitos básicos. 

Contudo, vários escritores iniciantes e até mais experientes os ignoram, mesmo que dominando estas práticas narrativas, consigam manipular melhor o tempo — algo que torna suas histórias mais atraentes. 

Ou seja, seu leitor ficará preso no texto, sem saber o que está acontecendo. Ele precisa seguir adiante. Ler página depois de página. Curioso com o que acontecerá.

Dentre alguns dos temas importantes da narração, já vimos aqui no site sobre a focalização e o ponto de vista, flashback e forward, prolepse e analepse, entre outros assuntos.

Hoje vamos tocar em mais um ponto fundamental: cena e sumário.

Continue lendo este artigo para ver:

  • Por que você precisa dominar cena e sumário na narração?
  • O que é cena?
  • E o que é sumário?
  • Como cena e sumário podem trabalhar juntos?
  • O conceito aplicado em A cidade e a cidade, de China Miéville


Por que você precisa dominar cena e sumário na narração?

Eu poderia dizer que consciente ou inconscientemente todo bom escritor sabe quando usar cena e sumário, mas há um argumento muito mais forte para você dominar esta questão.

Seu leitor.

Isso mesmo. Ao saber quando usar cena e sumário, você estará poupando seu leitor de ler uma parte da história que não agrega nada.

Afinal de contas, como saber o que devemos narrar em minúcias ou mais rapidamente?

Vamos ver isso em detalhes mais adiante.


O que é cena?

Podemos citar o cinema para tornar esta ideia mais clara. Mas não se confunda, trata-se de uma técnica literária.

Cena é a narração que mostra a história “acontecendo”. 

Não é um resumo ou uma explicação. É o que está sendo dramatizado naquele momento.

De uma forma bem didática, o professor Assis Brasil diz o seguinte:

Cena é o evento que decorre ‘em tempo real’ diante do leitor, e quase sempre vem escrito no presente do indicativo ou no pretérito perfeito. Digamos assim: a narrativa mostra as ações dos personagens como se estivessem acontecendo na nossa frente, num filme ou num palco — daí o nome ‘cena’.”

(pg. 181)*

Entretanto, isso não nos dá margem para uma interpretação simplista da conhecida frase de Ernest Hemingway. Mostre, não conte (show don’t tell).

Um conto pode ser “inteiramente mostrado” em cena, pois se constrói em cima do “não dito”, porém em um romance provavelmente precisaremos do sumário.


E o que é sumário?

Basicamente, é quando o escritor apresenta aquele resumo de uma cena que não deseja detalhar, ou de uma “explicação” que ofereça um contexto para uma cena. 

“Assim, o sumário, além de outras funções, abrevia o tempo e serve de ligação entre cenas.”

(pg. 185)*

Porém precisa-se tomar cuidado com o uso do sumário. Ele pode cansar o leitor, se o escritor fica “explicando tudo” o tempo inteiro.

Deixe que o leitor interprete o máximo de situações a partir das cenas. E sumarize para fazer transições de cenas que não necessitem de detalhamento.

E, agora, como os dois funcionam.


Como cena e sumário trabalham juntos

A história precisa ser uma progressão. 

Como aponta a teoria da iluminação do personagem, os encontros do protagonista devem servir para revelar sua personalidade ou fazer o enredo avançar.

Logo, se não acontecer nenhuma dessas duas coisas citadas acima — além de mostrar o objetivo ou a motivação do personagem —, procure produzir um sumário. 

Novamente, vou recorrer às ideias de Assis Brasil para definir o uso do sumário com mais exatidão. 

“Use […] quando a questão social do personagem  ou da história não estiver explícita, servindo para estabelecer pontes entre as diferentes cenas ou trazer ao leitor, via flashback, elementos importantes para a história atual.”

(pg. 193)*

Que tal vermos como um grande escritor trabalha esta questão?


O conceito aplicado em A cidade e a cidade, de China Miéville

Cena e sumário será visto na cena de um livro de China Miéville

A cidade e a cidade, de China Miéville, é uma obra que mistura ficção científica e romance policial. Fala de invisibilidade social e adoção de verdades convenientes. Além de extrapolar o conceito de geografia das cidades. Enfim, para mim, um clássico contemporâneo (veja na Amazon).

O que nos interessa aqui é ver o uso que o autor faz de cena e sumário.

Para diferenciar, na cena a seguir, coloquei o sumário em negrito. Vamos lê-la para entender:

“Um pequeno grupo de jornalistas estava reunido nas margens do terreno aberto. Petrus Sei-Lá-Das-Quantas, Valdir Mohli, um rapaz de nome Rackhaus e mais uns outros. 

– Inspetor! 

– Inspetor Borlú! 

E até: 

– Ty ador! 

A maior parte da imprensa sempre havia sido educada, e aceitava minhas sugestões do que noticiar. Nos últimos anos, jornais novos, mais licenciosos e agressivos, haviam sido fundados, inspirados e, em alguns casos, controlados por donos britânicos ou norte-americanos. Isso havia sido inevitável e, na verdade, as publicações locais mais antigas iam de respeitáveis a chatas. O que preocupava era menos a tendência ao sensacionalismo, ou o comportamento irritante dos jovens escritores da nova imprensa, do que a tendência a seguir escrupulosamente um roteiro criado antes que eles nascessem. Rackhaus, que escrevia para um semanário chamado Rejal!, por exemplo. Com certeza, quando ele me importunava em busca de fatos, sabia que eu não os daria; com certeza, quanto tentava subornar oficiais assistentes, e às vezes conseguia, não precisava dizer, como tendia: “O público tem o direito de saber!”. 

Nem sequer entendi da primeira vez em que ele falou isso. Em Besźel, a palavra “direito” é polissêmica o suficiente para fugir do significado peremptório que ele pretendia. Precisei traduzir mentalmente para o inglês, no qual sou razoavelmente fluente, para conseguir compreender a expressão. Sua fidelidade ao clichê transcendia a necessidade de comunicação. Talvez ele não fosse ficar contente até que eu bufasse e o chamasse de abutre, de sanguessuga. 

– Vocês sabem o que eu vou dizer – disse a eles. A fita esticada nos separava. – Haverá uma coletiva de imprensa esta tarde, no Centro do ECH. 

– A que horas? – Minha foto estava sendo tirada. 

– Você será informado, Petrus. 

Rackhaus disse algo que ignorei. Ao me virar, vi além dos limites do conjunto, no final da GunterStrász, entre os prédios de tijolos sujos. Lixo se movia no vento. Podia ser qualquer lugar. Uma senhora de idade caminhava devagar, se afastando de mim num passo vacilante. Ela virou a cabeça e olhou para mim. Fiquei incomodado com o movimento, e olhei nos olhos dela. Fiquei me perguntando se ela queria me dizer alguma coisa. 

No meu olhar captei suas roupas, seu jeito de andar, de se segurar e de olhar. 

Com um grande susto, percebi que ela não estava na GunterStrász, e que eu não a devia ter visto. 

Imediatamente, e agitado, desviei o olhar, e ela fez o mesmo, com a mesma velocidade. Levantei a cabeça, na direção de uma aeronave em sua descida final. Depois de alguns segundos, quando voltei a olhar para cima, sem reparar na velha que se afastava rapidamente, olhei com cuidado, em vez de para ela em sua rua estrangeira, para as fachadas da próxima e local GunterStrász, aquela zona depressiva.”

***

Esta cena foi selecionada quase a esmo no livro. Porém nos serve para explicar cena e sumário.

Repare que começamos com uma descrição dos jornalistas. Depois tivemos um diálogo e, em seguida, veio o sumário. Dois parágrafos longos de contextualização sobre a mudança da imprensa e a diferença cultural de quem fala outro idioma.

A seguir, temos mais um diálogo. O protagonista avisa aos jornalistas que haverá uma coletiva em outro momento.

No entanto, o que vem depois pode confundir. Seria uma cena ou um sumário?

Temos uma descrição do personagem vendo uma velhinha. Então descobrimos que ela não deveria ser vista.

Aqui preciso fazer um “sumário” para você entender. Isso acontece por que existem duas cidades no mesmo espaço geográfico. E os habitantes de uma cidade são ensinados desde crianças a desver os da outra.

Repare que a explicação acima não está no trecho do livro porque isso fica implícito no texto para quem lê a obra.

O que temos ali é uma cena, descrevendo em pormenores o que o personagem está fazendo. 

O momento está acontecendo, certo? Então os “parágrafos da velhinha” são cena.

Espero que tenha ficado claro. 


Conclusão

Saber quando usar cena e sumário torna você um escritor melhor.

Procure observar nos textos que já escreveu, ou nos que vai escrever, como está usando estes recursos.

E, repito, opte sempre por usar a cena. O que não couber ali, torne sumário.

É o que procuro fazer.

* As referências citadas neste artigo são do livro Escrever ficção, de Luiz Antonio de Assis Brasil — o qual tenho para mim como o melhor manual de escrita que já li e  indiquei em vídeo (assista abaixo). Se tiver interesse em adquirir, compre aqui!

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